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Louise Barsi explica como viver de dividendos seguindo o Jeito Barsi de investir

Para BNDES, ajuda à Globo não é garantida

Caso o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) vendesse hoje suas ações da Globo Cabo, que adquiriu em 1999 por R$ 160 milhões, perderia R$ 60 milhões. Mas, em vez de se desfazer do negócio, decidiu injetar mais R$ 284 milhões na empresa, esta semana. "Se não chegasse a R$ 1 bilhão, a capitalização seria insuficiente e os acionistas corriam o risco de colocar dinheiro bom em cima de dinheiro ruim", justifica o presidente do banco, Eleazar de Carvalho. Com mais três acionistas - a controladora Organizações Globo, o Bradesco e a rede de TV gaúcha RBS - o banco concluiu a mais rica e polêmica operação de capitalização em empresa de comunicação de que se tem notícia. Nesta entrevista ao Estado, Eleazar de Carvalho responde às críticas ao uso do dinheiro público na operação, acusada de favorecimento por políticos de oposição e de privilégio por outras empresas. Carvalho responsabiliza gestões "inadequadas" do passado, que levaram a Globo Cabo a acumular uma dívida elevada (R$ 1,5 bilhão) e em dólar, pela "situação delicada" que ela enfrenta hoje. Ele garante que a liberação do dinheiro ainda não aconteceu e não acontecerá se a maior empresa de TV a cabo do País não cumprir uma série de exigências negociadas com os acionistas, entre elas ser listada no nível 2 da Bovespa, o que a obrigará a cumprir regras de proteção ao acionista minoritário. "Do contrário, o dinheiro do BNDES não sai", diz, com firmeza. Os resultados ruins do balanço de 2001, divulgados esta semana, não assustam o presidente do BNDES. Em 2001 o faturamento da empresa caiu, o número de assinantes Net encolheu e o prejuízo alcançou R$ 700 milhões, ampliando para R$ 1,8 bilhão o prejuízo acumulado desde 1997. Mesmo assim, Eleazar de Carvalho confia na valorização futura das ações e que haverá demanda suficiente, inclusive no exterior, para a oferta pública de papéis que a empresa está preparando, o que dispensaria o BNDES de injetar R$ 120 milhões e reduziria sua participação na operação para R$ 164 milhões. Embora tenha concentrado - em 1999 e agora - um total de R$ 544 milhões numa única empresa, Carvalho considera que não houve nenhum privilégio à Globo Cabo e tampouco o banco feriu o princípio de não escolher vencedores e seguir uma política horizontal, válida para todos. "Se outras empresas da mídia concordarem com as condições que negociamos com a Globo Cabo, listarem suas ações no novo mercado, divulgarem informações confiáveis e de forma transparente, respeitarem os minoritários, estamos prontos a apoiar", afirma. A seguir, os principais trechos da entrevista. Estado - A repercussão da operação Globo Cabo foi ruim. Na área política foi acusada de favorecimento e na técnica os analistas de bancos mostram-se hesitantes em recomendar a compra de ações quando acontecer a oferta pública. O sr. não considera temerário um banco público, como o BNDES, concentrar a aplicação de uma grande soma de dinheiro numa única empresa, cuja perspectiva futura gera dúvidas? Eleazar de Carvalho - Acho compreensível que tenha gerado uma grande discussão, até porque saiu na imprensa de forma muito distorcida, dando a impressão de que o banco financiava R$ 800 milhões e isso gerou um enorme questionamento. Virou confusão o que deveria ser um processo normal de publicação de fato relevante, etapas a serem cumpridas numa operação em bolsa e cujo resultado final seria divulgado até com mais detalhes, porque vários aspectos do acordo de acionistas acabaram não divulgados. Quero esclarecer que a operação só sai se todas as etapas e condições negociadas com a Globo Cabo forem cumpridas. Estado - Significa que a liberação dos recursos não se dará já e vai esperar uma segunda etapa? Carvalho - Isso. A diretoria do banco terá de aprovar o novo acordo de acionistas, a listagem das ações no nível 2 da Bovespa, a regulação do novo conselho de administração. Estamos fazendo uma oferta pública em que os acionistas controladores estão garantindo um montante de R$ 1 bilhão, portanto sinalizando que há disposição real deles em participar. Neste sentido, se o mercado não participar ficam só os acionistas e as críticas podem ganhar sentido. Porém, se as condições discutidas entre os sócios não forem cumpridas não haverá nenhuma operação. Este é o processo que os analistas precisam tomar conhecimento ao ouvir a história da empresa, conhecer a nova estrutura de capital, avaliar tudo isso e, por último, ver o preço. É bom lembrar que esta mesma empresa que não se mostra viável, de acordo com algumas opiniões, estava negociada em bolsa a quase R$ 0,80, recentemente. E que informações os analistas têm hoje? Essencialmente têm o interesse da capitalização, o montante declarado. Mas só isto. A empresa vai precisar se posicionar e quem tem de fazer isto é ela, não cabe a nós dizer que é um bom negócio para terceiros ou recomendar suas ações. Então temos que ver essa posição e definir qual o limite que julgamos fundamental para considerar que a alternativa de capitalizar é melhor do que não fazer nada, levando em conta que já somos acionistas. Estado - E qual seria esse limite? Carvalho - Uma condição prévia necessária para nós é a governança. Se a empresa tivesse preço atraente e todas as boas condições possíveis, ainda assim não seria um negócio interessante para o banco, se não fosse possível agora mudar a estrutura inadequada que a levou a ter problemas. Estado - Nesta inadequação o endividamento tem maior peso? Carvalho - De onde vem o endividamento? Vem de uma estratégia financeira que foi afetada por desvalorizações cambiais - e empresas que foram afetadas por desvalorização não necessariamente sofreram o mesmo baque - mas também de estratégias de mercado inadequadas. As reestruturações por que passou a companhia no passado se mostraram ineficazes. Então, o que faria com que, desta vez, fosse diferente? Primeira coisa: a operação não seria concretizada se a empresa não fosse para o novo mercado (onde são negociadas ações de empresas que oferecem boa governança corporativa, transparência de informações e respeito e proteção aos direitos de acionistas minoritários). Estado - Ou seja, ela terá de se adaptar às exigências de uma empresa inscrita no nível 2 da Bovespa? Se isto não acontecer já o dinheiro do BNDES não sai? Carvalho - Do contrário, o dinheiro do BNDES não sai. O nível 2 da Bovespa implica oferecer uma série de condições muito positivas para o acionista minoritário. O minoritário que tinha ações da Globo Cabo até a semana passada passará a ter uma melhoria de governança enorme. É uma mudança extraordinária. O ponto é: este foi o elemento absolutamente básico e primordial. Mas não é suficiente. Estado - Então adaptar a empresa às regras do nível 2 da Bovespa foi a exigência maior negociada com a Globo Cabo? Carvalho - Esta foi exigência inicial básica e colocamos de uma forma que permite a migração para o novo mercado. Temos apoiado empresas que aceitam ir para o nível 2 da Bovespa porque é realmente um divisor de águas, é algo que a maioria das empresas não topa e é extraordinário que um grupo brasileiro esteja aderindo. Qual é a diferença entre o nível 2 e o novo mercado? A única diferença que no novo mercado ela só pode negociar ações ordinárias, com direito a voto. E qual é a intenção? Se a Lei do Cabo mudar, automaticamente a Globo Cabo terá 60 ou 90 dias para converter suas ações às condições do novo mercado, ou seja, 100% ordinárias. Será também modificado o acordo de acionistas para introduzir certas matérias de quórum qualificado que digam respeito a questões financeiras, de mudança de tecnologias, investimento elevado, pontos que envolvam as próprias partes relacionadas. Exemplo: se ocorrer situação de conflito de interesses entre as Organizações Globo e a Microsoft os acionistas têm a oportunidade de examinar no nível do conselho. É uma lista que - posso assegurar - é extensiva, forte, não é para inglês ver. Acho que este pacote é parte do que deveria ser apresentado a outros acionistas, porque estão no mesmo barco, nas mesmas condições do BNDES. Estado - Se estão no mesmo barco, por que a operação não obedeceu aos princípios de proporcionalidade entre os sócios e o BNDES entrou com parcela maior do que os outros? Carvalho - Não senhora. A Globo entrou com mais. Estado - Mas ela é controladora. Falo dos outros acionistas - Bradesco, RBS e Microsoft. E esta última nem entrou ainda... Carvalho - Ao defender a nossa lógica, fico numa situação um tanto exótica, digamos assim, de parecer que estou defendendo a Globo. Não é esta a minha intenção. A Globo entrou com participação maior do que seu capital. A RBS (rede de televisão gaúcha), de fato, não entrou com parcela equivalente ao seu capital. Mas o fato é que em valores referentes à parcela de dinheiro novo cada um está na sua respectiva proporção. O excedente é que foi desproporcional, mas não vou subscrever os R$ 120 milhões finais a um valor qualquer. Ele terá de ser necessariamente um preço atraente. Estado - Há um parâmetro para definir este preço atraente? Carvalho - Há e não divulgamos, mas está próximo ao preço de mercado de hoje. E se houver demanda na oferta pública de ações vamos reduzir nossa garantia de modo proporcionalmente igual ao dos outros sócios. Estado - Como não há um precedente na mídia de uma operação em que o BNDES tenha comprometido tal volume de recursos - R$ 260 milhões da primeira vez e R$ 284 milhões agora - em uma única empresa, esta operação contraria o princípio que o BNDES diz pregar de não escolher vencedores, nem privilegiar empresas. A tal política horizontal, válida para todos, foi descumprida neste caso? Carvalho - Em primeiro lugar, este tipo de operação o BNDESPar faz no seu dia-a-dia. Já oferecemos garantias antes e participamos de operações de valor até o limite de um terço do total. Além disso, temos colocado nessas operações a questão do novo mercado, da governança, que são críticas porque, não resolvidas, entravam o mercado de capitais. O ponto é o seguinte: tem de contemplar também dinheiro de terceiros. Seria radicalmente contra se fosse uma operação em que só o BNDESPar subscrevesse as ações. Mas de uma operação com as características que descrevi temos precedente sim. Estado - Não na área de mídia. Operações com outras empresas de televisão ou TV a cabo têm valores muitíssimo menores. Carvalho - Mas veja o tamanho da empresa. A Globo Cabo tem porte. É uma empresa de cabo que atua no meio, não é geradora de programação, ela compra programação de terceiros. É uma distinção. Eles reformularam e têm de vender sua história, ter uma estratégia, um plano de negócios, preço atraente, governança e uma estrutura em que todos os acionistas poderão usufruir o mesmo benefício. Olharemos qualquer empresa de mídia, desde que tenha governança, preço adequado e as proteções necessárias ao acionista minoritário. Estado - Estas então são condições prévias e indispensáveis? Carvalho - No mínimo que se enquadrem no nível 2 da Bovespa. É claro que cada negócio é um negócio diferente. Estado - A Microsoft ainda não definiu sua participação? Carvalho - De fato não definiu ainda. Mas a Microsoft sempre viu esse negócio como potencial para digitalização da rede e venda de software. Estado - Os resultados do balanço de 2001 foram ruins: lucro alto, faturamento em queda, redução do número de assinantes. O que levou o banco a confiar que será um bom negócio no futuro? Carvalho - Fomos até muito conservadores em nossa avaliação. O analista costuma olhar para o futuro, se o negócio é bom ou não. Mas neste caso as informações para o analista ainda são limitadas. A idéia é divulgar todas as informações possíveis para analistas e potenciais investidores avaliarem com maior precisão. Uma crítica comum que tem surgido diz assim: "o BNDES está dando dinheiro em condições favorecidas para a Globo". Francamente, isto não é a realidade. Porque se fosse um empréstimo para um controlador, com TJLP, aí sim seria absurdo. Mas o que vou avaliar é se é melhor eu ser um debenturista, ou é melhor ser um acionista, dado que o papel é barato e a empresa já espelha hoje um valor em bolsa abaixo do que pode ser convencionado como um valor justo. E nestas condições eu tenho maior potencial para valorização do que para o contrário. Estado - O dilema maior da Globo Cabo é sua dívida, que é alta e, por ser expressa em dólar, é descasada do faturamento, todo em real. Há exigência dos minoritários para ela converter a dívida para reais? Carvalho - Este é um problema crítico e é uma das razões - não a única - que colocou a empresa na situação delicada de hoje. Nossa exigência é relativa à gestão financeira que - está no acordo de acionistas - deve ser aprovada pelo conselho. Certamente ela estará olhando oportunidades em mercado para captar recursos e se esses recursos forem atraentes e em reais ela vai fazer isto. É claro que gostaríamos que ela convertesse mais e mais suas operações para reais. Esteja certa: os acionistas, por meio do conselho, vão cobrar uma política ativa, transparente, que gere confiança. Como nossa participação pode chegar a 12% no limite, temos direito e vamos ocupar uma vaga no conselho. Estado - Qual banco vai operar a oferta pública de ações? Carvalho - A companhia está escolhendo. Para nós é fundamental que seja um banco em condições de atuar também lá fora, porque a oferta de ações será feita também no exterior. Estado - Desde 1997 a Globo Cabo tem apresentado prejuízos em todos os anos. Em 2001 chegou a R$ 700 milhões. Se o BNDES entrou na empresa em 1999, qual o prejuízo total acumulado nestes anos? Carvalho - Na época, o banco comprou R$ 160 milhões em ações, que valem hoje R$ 100 milhões. Portanto, uma diferença de R$ 60 milhões. Compramos mais R$ 100 milhões de debêntures, mas isto é crédito. Mas você só realiza prejuízo quando vende a ação e não é o caso. Naquela época o investimento se justificava, entrou a Microsoft, tinha um boom no valor de internet, a empresa chegou a valer mais de R$ 2 bilhões. Estado - E hoje vale quanto? Ouvi avaliação de R$ 1,8 bilhão. É isto? Carvalho - Não sei bem. Mas R$ 1,8 bilhão está me parecendo alto.

Agencia Estado,

17 de março de 2002 | 09h38

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