Para China, América Latina não é prioridade

Relatório afirma que política externa do país tem que priorizar a ONU.

Marina Wentzel, BBC

29 de janeiro de 2008 | 18h00

O relatório produzido pela Academia Chinesa de Ciências Sociais (Cass, na sigla em inglês) e divulgado pela imprensa oficial nesta terça-feira traça estratégias para a China no cenário internacional em longo prazo e não destaca a América Latina como prioridade. O documento estabelece que a China precisa criar e assumir a liderança em novos fóruns coletivos do mundo e focar suas ações em fortalecer e desenvolver a presença que tem em meios influentes como a Organização das Nações Unidas (ONU).O estudo não representa a posição oficial do governo chinês, mas é levado em consideração pelas autoridades do Ministério das Relações Exteriores na hora de desenvolver novas políticas. O trabalho faz uso de uma metáfora para explicar as prioridades da China. Segundo o plano, apelidado de "Estratégia da Pomba da Paz", a política externa chinesa deveria ser mapeada como as partes de um pássaro.A cabeça do animal seria a prioridade máxima, representado pela Organização das Nações Unidas.O peito corresponderia à Associação Asiática (AA), espécie de bloco regional que a China pretende fundar e capitanear. É diferente da já existente ASEAN, Associação de Nações do Sudoeste Asiático. "A China pode promover ativamente o estabelecimento de da AA (Associação Asiática) e assumir maiores responsabilidades, como lutar para assumir a organização do secretariado da associação", sugere o documento.'Asas'O estudo também deixa claro que é necessário para a China encontrar um equilíbrio na relação entre os Estados Unidos e a Europa e por isso cada um representaria uma asa do pombo.A asa da direita seria a APEC (Fórum de Cooperação Econômica da Ásia-Pacífico), organização da qual os Estados Unidos fazem parte, enquanto que a asa do esquerda seria uma parceria entre a Ásia e a União Européia, que ainda está para ser criada."Em 2008 o sétimo encontro Europa-Ásia ocorrerá em Pequim, a China poderá sugerir elevar o encontro ao status de cooperação para uma AEEC (Asia-Europe Economic Cooperation), e se aventurar a se encarregar do secretariado dessa organização", recomenda o documento.À última parte, o traseiro do pássaro, representaria a América Latina, a África e a Oceania. Menor apreçoO autor do estudo, o professor He Chuanqi, disse à BBC Brasil que o fato de a América Latina estar representada pelo traseiro do pássaro não significa que a região é tida com menor apreço pela China."As características da estratégia estão baseadas na Ásia, porém abertas ao mundo para encontrar um balanço entre o oriente e o ocidente em cooperação e colaboração com o Sul, inclusive África, Oceania e América Latina. O Brasil é um de nossos parceiros estratégicos", defendeu He.O estudo destaca que a China só deve buscar investir em relações com países que tenham alguma das seguintes qualidades: "ser inovador, ter muitos recursos, possuir uma grande população, ter cultura, ser amigável ou estar nos arredores da China".De acordo com He, a relação com o Brasil se justifica, pois o país "possui uma grande população, é abundante em recursos naturais e amigável".O documento faz clara menção à reforma da ONU e incita a China a participar "ativamente e exercer completamente a sua função". Entretanto, perguntado se isso pode significar dar apoio ao Brasil na candidatura a um assento permanente no Conselho de Segurança, He respondeu: "no momento a estratégia é só um cenário sugerido pelo nosso grupo de pesquisa, nós ainda não estudamos em detalhes o caso da reforma nas Nações Unidas". Terceiro MundoPara o brasilianista da Academia Chinesa de Ciências Sociais, Jiang Shixue, a "Estratégia da Pomba da Paz" é subjetiva e a representação da América Latina como uma parte menos favorável na metáfora do pássaro não deveria ser interpretada como sinal negativo. Os países da América Latina são "uma parte do terceiro mundo com quem a China sempre pode se unir", ainda que não sejam uma prioridade, diz Jiang."É de se esperar que a China e o Brasil se fortaleçam e tenham mais parcerias no futuro", defende Jiang. O pesquisador chinês baseado na Universidade de São Paulo, Zhou Zhiwei, também acredita que a relação Brasil-China está bem."Do ponto de vista comercial e cultural, nunca houve tanta interação ao longo de toda a história dos laços entre os dois países", conclui.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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