Para Conselho Mundial de Energia, Petrobrás terá sérios problemas para financiar o pré-sal

Escândalo de corrupção na Petrobrás será 'nefasto' para os investimentos da estatal, diz entidade

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

13 Abril 2015 | 16h00

GENEBRA - A Petrobrás terá "sérias dificuldades" para financiar e atrair investidores para o pré-sal enquanto não resolver seu "problema de administração". O alerta é de René Bautz, presidente do Conselho Mundial de Energia, uma instituição que concentra especialistas, empresas e governos de todo o mundo para examinar o segmento e coletar dados. 

Segundo ele, a preocupação de investidores é de que a Petrobrás seja uma "bola de neve" e "contamine" todo o clima de investimentos na América Latina. "O setor está muito preocupados", declarou o executivo, que também é CEO a Gaznat, uma empresa com sede na Suíça. 

Segundo ele, a imagem passada pelo escândalo da Petrobrás deve afetar o fluxo de investimentos para o setor de energia em toda a região. Criado em 1923 e com mais de 3 mil membros em 90 países, o Conselho é um dos principais órgãos que monitora o mercado de petróleo no mundo. 

"Vemos problemas na gestão interna e questões políticas que influenciaram", alertou. "Lamento muito. A Petrobrás tem um grande potencial para o futuro. Mas hoje terá de ter cuidado com sua gestão primeiro", indicou.

Para ele, a questão não se resume a privatizar ou não a estatal. " A privatização pode ser (uma opção). Mas o que conta é a administração. A imagem e a credibilidade no mercado internacional para atrair investidores. Nisso ela terá de ter muito cuidado", avaliou Bautz.

Em sua avaliação, a atual crise "pode ser nefasta" para a Petrobrás. "Restabelecer uma boa imagem pode levar anos", alertou, apontando para exemplos de empresas como a BP que, por uma crise ambiental, foi seriamente afetada.

Hoje, mais de dez fundos de pensão e investidores nos EUA e Europa já se lançaram em processos legais contra a Petrobrás, o que promete afetar de forma importante as contas da empresa. 

Por enquanto, a estatal sequer publicou em seu balanço financeiro o impacto do que seria o desvio de dinheiro, alvo das investigações no País. 

Preços. Para ele, o escândalo de corrupção ocorre no mesmo momento de quedas nos preços do petróleo, o que dificultará ainda mais os investimentos. 

"Certamente no longo prazo investir na Petrobrás é algo interessante. No longo prazo, até 2040, precisaremos de mais energia e um aumento de 30% na produção mundial ", disse. 

"Mas o fato é que hoje, com a queda do preço, (o pré-sal) é um investimento que será extremamente difíceis de rentabilizar", declarou. 

Para Bautz, os valores hoje do preço do barril tornam investimentos como o da Petrobrás em um "desafio". Uma avaliação da ONU, porém, é de que os preços ainda podem cair, já que não existe nenhum fator que revele um aumento do consumo mundial ou do crescimento da economia.  

Ele, porém, admite que parte da estratégia de redução de preços pode ser uma manobra dos grandes produtores atuais para adiar projetos que possam ser concorrentes aos seus.  

"Talvez seja uma estratégia geopolítica de países produtores para deslocar e adiar esses projetos para não perder essa parte do mercado", completou. 

Em apenas nove meses, o barril do petróleo perdeu mais de 50% de seu valor, enquanto países como a Arábia Saudita se recusam a limitar sua produção e exportação.

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