Para Credit Suisse, País crescerá só 0,3%

Na avaliação de Nilson Teixeira, próximo presidente terá de fazer ajustes na área fiscal e monetária

Entrevista com

Nilson Teixeira, economista-chefe do banco Credit Suisse

LUIZ GUILHERME GERBELLI, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2014 | 02h02

O banco Credit Suisse reduziu as projeções para o crescimento da economia brasileira neste ano para apenas 0,3%, de uma previsão anterior de 0,6%. Em 2015, a economia brasileira deverá acumular mais um ano de baixo crescimento. O Produto Interno Bruto (PIB) deverá avançar 0,6%, segundo o banco. "No fundo, a mensagem é que 2015 será um ano de ajuste. Não importa quem venha a ser o novo presidente: a economia terá que passar por ajuste", afirma Nilson Teixeira, economista-chefe do banco Credit Suisse. A seguir os principais trechos da entrevista concedida ao Estado.

Por que a projeção do PIB de 2014 foi reduzida?

A queda é motivada pelos resultados do primeiro semestre, que mostraram uma atividade mais fraca do que a gente imaginava, em particular pelo desempenho do consumo das famílias e pela contração dos investimentos. Ao mesmo, o consumo do governo, que, em anos de eleição, sempre teve um desempenho maior do que o que está tendo este ano. Do lado do setor externo, não imaginávamos que os países da América Latina, em particular a Argentina, tivessem um desempenho desfavorável. Todos os componentes do PIB têm tido um desempenho mais desfavorável do que a gente imaginava no começo do ano.

Por que a expectativa de baixo crescimento para 2015?

Para 2015 é inegável que há um grau de incerteza muito grande. Se você disser que haverá uma contração do PIB de 1% no próximo ano, eu não vou dizer que é improvável. Não temos instrumentos para dizer que esse cenário é impossível. Do mesmo modo, se você disser que o crescimento será de 1%, não temos argumentos sólidos para dizer que está errado. Nós estamos trabalhando com 0,6% e com uma expectativa que o comportamento dos investimentos melhore no próximo ano, em particular no segundo semestre. No fundo, a mensagem é que 2015 será um ano de ajuste. Não importa quem venha a ser o novo presidente: a economia terá que passar por ajuste.

Quais ajustes?

Primeiro, é a questão da natureza fiscal. Há necessidade de fazer uma redução expressiva do crescimento das despesas. Segundo, é necessário fazer um aperto monetário. É óbvio que o mais importante é o ajuste fiscal. Quanto maior o ajuste fiscal, menos necessário será o aperto dos juros. A inflação no Brasil continua muito alta, muito mais alta do em que vários países e para trazê-la para centro da meta - que é de 4,5% - é fundamental fazer um aperto monetário em associação com um ajuste fiscal.

Nesta semana, a Moody's colocou o rating brasileiro em perspectiva negativa. O que acontece se o Brasil não fizer os ajuste?

A decisão da Moodys's está muito associada a duas questões em particular: das contas fiscais e do crescimento. Quando a gente fala em ajuste fiscal, estamos tendo uma leitura mais ampla. Estamos falando em uma adequação de forma permanente. É mais uma questão criar uma forma institucional para que o crescimento das despesas seja sempre menor que o da receita. No fundo, estamos argumentando que o País tem de buscar superávits primários mais elevados que permitam essa retomada do crescimento. Além disso, há uma série de outros ajustes que a literatura sugere que colaborariam para o maior crescimento. É um esforço que não é de três, seis meses. É um esforço de vários anos.

De quanto deveria ser o superávit do Brasil?

É difícil dizer um número. Elevar impostos nunca é uma boa ideia. O caminho a ser perseguido vai ser da redução de gastos. Mais do que uma decisão do ministro da Fazenda, vai depender muito da decisão política do presidente. Reduzir gastos é deixar de beneficiar alguns setores. Cabe ao presidente arbitrar como será esse processo. Em relação ao número adequado, nos parece que, quanto maior o superávit primário, menos necessário será o aperto monetário. O ideal, nos próximos anos, é alcançar um superávit primário superior a 3% do PIB. É um número para garantir que a dívida bruta diminua. A dívida bruta do País é expressiva se você compará-la com outros países emergentes.

Diante desse cenário, como deve se comportar a inflação?

Um dos custos de não promover os ajustes da forma como mencionamos é o risco de uma inflação alta por um período prolongado. E a inflação alta, talvez, seja um dos piores custos para classe trabalhadora. Uma inflação menor garantia melhor capacidade para as empresas projetarem os seus investimentos e ajudaria na capacidade da classe trabalhadora de fazer planejamento de seu consumo.

E a volta dos preços administrados?

A questão dos preços administrados é a mesma que se coloca na questão do superávit. Caberá ao presidente eleito decidir qual o ritmo da inflação vis-à-vis que o custo que vai trazer no curto prazo. Quanto mais rápidos os ajustes forem realizados, melhor para uma recuperação da economia.

Algum setor da economia pode surpreender favoravelmente?

Pode haver notícias mais favoráveis do setor externo. Por quê? Nessa história que nós contamos, a diminuição da demanda significa menor importação. Consequentemente, o setor externo pode contribuir favoravelmente.

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