Para Delfim Netto e Belluzzo, dólar alto não atinge inflação

Junto com Eduardo Loyo, economistas debatem no 'Grupo Estado' os efeitos da crise financeira mundial no País

Célia Froufe, da Agência Estado,

14 Outubro 2008 | 12h44

Os efeitos para a inflação de uma possível continuidade da desvalorização cambial gerou polêmica entre os economistas que participaram do debate "O Brasil e a Crise", realizado nesta terça-feira, 14, pelo Grupo Estado, com transmissão ao vivo pela TV Estadão. Para o ex-ministro Delfim Netto, ao final da atual turbulência financeira, o dólar deve ficar cotado no intervalo entre R$ 1,95 e R$ 2,05. "A interferência para os preços internos é muito pequena", defendeu. Veja também:Bush anuncia compra de ações de bancos pelo Tesouro dos EUAEm meio à crise, empresas têm que pagar US$ 15 bi ao exteriorComo o mundo reage à crise  Entenda a disparada do dólar e seus efeitosEspecialistas dão dicas de como agir no meio da crise A cronologia da crise financeira  Dicionário da crise  Já para o economista-chefe para a América Latina do UBS Pactual e ex-diretor do Banco Central, Eduardo Loyo, embora o grau de transmissão do câmbio para a inflação seja muito variável, dependendo das expectativas e da atividade entre outros pontos, ele terá um impacto relevante sobre os preços no Brasil. "Não chego a ter a convicção de Delfim de que, caso o câmbio se estabilize na vizinhança de R$ 2,00, a transmissão será muito pequena para os preços domésticos", defendeu. Segundo ele, caso fique nesse patamar de R$ 2,00, a desvalorização do real será de aproximadamente 25%, o que geraria o efeito de aproximadamente 2 pontos porcentuais para a inflação. O economista e professor da Unicamp Luiz Gonzaga Belluzzo, que também participa do debate, acredita ser mais provável um processo de recessão econômica em todo o mundo do que uma generalização da alta de preços. "Acho difícil ter inflação", disse, argumentando que entre outros pontos a China continua a ter um papel relevante no mundo neste aspecto ao exportar produtos baratos. "O risco de recessão é maior do que o de inflação. Por isso, o Banco Central precisa adotar o "wait and see" (aguardar para observar), argumentou. O Banco Central brasileiro iniciou em abril um ciclo de aperto monetário que elevou a Selic a uma taxa de 13,75% ao ano. A próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) está marcada para os dias 28 e 29 deste mês. "A ação do BC deve ser cautelosa", disse Belluzzo. De acordo com ele, os próximos dois trimestres serão fundamentais para mostrar qual é o cenário real da economia. "Não sei como a economia real vai reagir à crise. Minha impressão é a de que os consumidores vão cortar os gastos, e por isso, as empresas vão diminuir um pouco o ritmo." Belluzzo acrescentou ainda que, nas atuais circunstâncias, a redução do compulsório dos depósitos bancários não é instrumento equivalente à baixa de juros. "É uma questão de funcionalidade", resumiu. Esforço Loyo contrapôs a afirmação de Belluzzo de que seria preciso fazer um esforço muito grande para que a inflação no Brasil suba. "Não acho que o Brasil precise fazer dança da chuva pra chamar a inflação, não", afirmou o economista do UBS. "A gente ainda tem uma inflação um pouco maior e mais teimosa do que gostaria de ter. Não dou por encerrado o ciclo de alta de juros". Delfim acredita que o empresário que puder aguardar alguns meses antes de realizar investimentos programados, assim irá agir. "Se o investimento pode esperar um ou dois meses, ele vai esperar. Até para ver como o Banco Central vai agir." O ex-ministro acredita que a partir das medidas anunciadas pelo Banco Central recentemente, o sistema bancário acabará reagindo a este estímulo podendo normalizar a liquidez no sistema. "O banqueiro agiu como está agindo o empresário", comparou o ex-ministro, referindo-se à interrupção de oferta de crédito. Loyo ressaltou ainda a importância de o governo manter o equilíbrio fiscal. Segundo ele, o prognóstico para a arrecadação de impostos atualmente é menor do que era no passado. "Não acredito em redução radical de nível de atividade, mas da lucratividade das empresas, o que deve diminuir a arrecadação." Delfim ironizou o fato de o BC utilizar da redução dos compulsórios para trazer mais liquidez ao mercado. "O nosso compulsório alto acabou sendo uma virtude. Vamos pagar o preço (da crise), mas estamos um pouquinho melhor do que os outros e infinitamente melhor do que estávamos no passado", avaliou. Para ele, as ações do BC têm sido na direção correta. O ex-ministro ressaltou, no entanto, que não havia no front a expectativa de que o mercado financeiro brasileiro acabasse absorvendo uma parte da crise internacional de forma tão rápida. "Mas o mercado brasileiro tem mania de grandeza, não poderia ficar de fora", ironizou. Sobre este ponto, Loyo, do USB, ressalto que caiu por terra a ilusão de alguns especialistas de que os emergentes aproveitariam o momento de crise para dar um grande salto econômico. "As teses de descolamento foram bastante desmoralizadas, mas continua sendo verdade que, em termos relativos, o Brasil está muito bem se comparado a muitos outros emergentes em termos de solidez de seus fundamentos e se comparado a si mesmo, em ocasiões anteriores." Para ele, a reação do mercado doméstico no último mês foi uma surpresa. Não esperávamos que alguns elementos pudessem chegar à nossa praia de maneira tão clara, mas acabaram chegando à nossa porta", disse, acrescentando que a falta de liquidez no mercado levou a uma intervenção correta por parte do Banco Central. "A cautela das instituições financeiras com sua liquidez chegou de uma forma muito mais forte do que era imaginado esperar", continuou, acrescentando que a grande dúvida agora é saber por quanto tempo esses efeitos permanecerão.

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