Para Delfim, real virou produto e País caiu em armadilha

O deputado federal Delfim Netto (PMDB-SP) disse nesta quinta-feira que a política monetária valorizou o câmbio de forma irresponsável ao transformar o real em uma das mais atraentes commodities mundiais. Essa característica de "produto", conferida à moeda brasileira por conta dos juros altos - que favorecem as operações de arbitragem - é, segundo Delfim, uma armadilha acionada. "Qualquer perspectiva do que pode acontecer com os juros internacionais, qualquer movimento no mundo, produz uma desvalorização ou uma valorização de 20% em poucos dias. Isso mostra claramente que nossa vulnerabilidade continua alta", afirmou o ex-ministro durante o Congresso da Indústria 2006, lembrando que a relação da dívida com o Produto Interno Bruto (PIB), acima de 50%, mostra que o País tem um sério problema de endividamento. Hoje, o governo anunciou que esta relação está em 51%.Para Delfim, que é presidente o Conselho Superior de Economia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a distorção cambial é resultado de um sistema de metas de inflação mal preparado, que não dá importância ao equilíbrio em conta corrente.Intervenções equivocadas Ele acusou os governos Sarney, Collor e Fernando Henrique Cardoso de fazerem intervenções equivocadas no câmbio, o que, ao longo dos anos, tornou o ambiente hostil à produção. "E não há crescimento sem indústria próspera, é ela quem determina no crescimento de um País", afirmou a cerca de mil empresários reunidos no Congresso.O ex-ministro acredita que falta à indústria brasileiras ter condições isonômicas com seus concorrentes externos e essas condições são determinadas por juros, câmbio e salários. "Qualquer alteração nesse tripé afeta o crescimento econômico", disse. Ainda sobre o câmbio, Delfim lembrou o ex-ministro Antonio Palocci. "Ele costumava dizer que a graça do câmbio flutuante é que ele flutua. Mas temos visto que o câmbio ou afunda ou voa, não flutua."Recessão nos EUA e impacto no BrasilO deputado disse ainda que haverá recessão nos Estados Unidos e que esse movimento afetará todos os países do mundo, inclusive o Brasil. Na avaliação do ex-ministro, não dá para prever em quanto tempo essa recessão norte-americana se mostrará de forma concreta, mas o fato é que o Brasil "tem bala" para enfrentar a desaceleração na economia mundial provocada pelos Estados Unidos. Para Delfim, o Brasil tem inclusive condições de sofrer menos com a recessão norte-americana do que outros países emergentes. "É claro que se o mundo crescer menos, cresceremos menos. Mas não teremos recessão", reiterou.O ministro explicou que o equilíbrio externo é absolutamente instável, e não houve na história qualquer correção feita à base de taxa de câmbio. "Na verdade, haverá uma recessão para cortar a demanda nos Estados Unidos, e todo mundo sofrerá", repetiu. O ex-ministro participou do Congresso da Indústria 2006, em São Paulo.Este texto foi alterado às 14h42.

Agencia Estado,

25 de maio de 2006 | 13h33

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