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Para derrubar o custo do crédito

Com a redução do compulsório, os bancos devem ficar com mais R$ 6,5 bilhões para seus negócios, mas até que ponto isso ajudará a reduzir o custo do crédito?

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

30 Dezembro 2017 | 16h00

A partir de janeiro, os novos limites para os depósitos compulsórios estarão a pleno efeito. É um assunto que não interessa apenas aos bancos. Mais cedo do que tarde, terá impacto na vida econômica e financeira do brasileiro.

Primeiramente, aos conceitos, que é para arejar a cabeça de quem não acompanha de perto o tema. Depósito compulsório ou retenção compulsória é a parcela dos depósitos dos clientes com que os bancos não podem trabalhar. Tem de ser recolhida ao Banco Central, onde fica depositada como “reservas bancárias”. Em alguns casos, rendem juros para os bancos.

Esta é uma exigência técnica que existe para evitar a excessiva multiplicação de dinheiro em circulação na economia. Se os bancos pudessem usar todos os depósitos dos seus clientes para emprestá-los a empresas e pessoas físicas, fatalmente a maior parte dos recursos voltaria a ser depositada nos bancos que, outra vez, usariam os novos depósitos para aumentar seus financiamentos – e estaríamos diante de uma avalanche de moeda. Nessas condições, o sistema ficaria a perigo, porque bastaria que pequeno número de depositantes pedisse de volta seu dinheiro para que o banco deixasse de ter recursos para isso, porque estariam emprestados. Depósito compulsório é, portanto, colchão de segurança com que operam os bancos.

A decisão do Banco Central foi reduzir de 45% para 40% o compulsório sobre depósitos à vista; e de 36% para 34% sobre os depósitos a prazo. Nos cálculos do Banco Central, com essa redução do compulsório, os bancos ficam com mais R$ 6,5 bilhões para seus negócios.

Os recolhimentos compulsórios existem em todos os sistemas bancários. No Brasil, no entanto, continuam entre os mais altos do Planeta porque, em consequência dos trancos por que passou a economia nacional, foi necessário operar com mais segurança. Dado o alto volume de recursos bloqueados, até agora foi – e continuará sendo – uma das razões pelas quais os bancos cobram juros mais altos dos clientes. Ou seja, na prática, o Banco Central iniciou movimento de redução dos custos dos bancos.

A pergunta agora consiste em saber até que ponto essa injeção de mais R$ 6,5 bilhões vai contribuir para a redução dos juros cobrados nos empréstimos aos clientes dos bancos e para a expansão do crédito. A curto prazo, pouca diferença deverá fazer, porque sobram recursos no caixa dos bancos. Ou seja, não é por falta de recursos que, no momento, o crédito cresce abaixo do desejado e os juros na ponta do tomador de crédito caem menos do que poderiam cair. Isso acontece mais por aumento da inadimplência (calote) e por relativamente baixa demanda por parte do consumidor, que continua muito endividado.

Além disso, os grandes bancos trataram de reduzir contabilmente os depósitos à vista em conta corrente para recolher menos depósitos compulsórios. Quando seu banco transforma automaticamente seu saldo em conta corrente em “investimento” ou em aplicação à vista em CDI, está produzindo esse efeito. (Boa pergunta consiste em saber por que o Banco Central permitiu essas práticas sabotadoras da boa técnica. Vai que já não funcionaram como boa técnica...) Nesses casos, portanto, o impacto será mais baixo, porque o banco já vinha recolhendo menos depósito compulsório do que deveria.

Mas, a longo prazo, isso trabalhará pela redução dos juros cobrados nos empréstimos e produzirá efeito semelhante ao da redução dos juros básicos (Selic).

Os bancos centrais quase nunca operam aos trancos. Preferem o manejo com ajustes finos, que é para transmitir tranquilidade ao mercado. Por isso, também, se espera que este seja apenas o primeiro passo para corrigir importante deformação estrutural da política monetária (política de juros).

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