Para diretor do BC, inflação vai subir

Hamilton, contrariando discursos de Mantega e Dilma, diz que recuo no IPCA foi ‘ponto fora da curva’ e que política fiscal é expansionista

ADRIANA FERNANDES, ENVIADA ESPECIAL A BELÉM (PA), O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2013 | 02h12

Depois da comemoração da presidente Dilma Rousseff da queda da inflação para níveis próximos de zero, o diretor de Política Econômica do Banco Central, Carlos Hamilton, jogou ontem um balde de água fria nas expectativas de autoridades do governo ao afirmar que o resultado do IPCA em julho foi um "ponto fora da curva".

Ele também previu que haverá aceleração do índice mensal até o fim do ano. Em contraponto à avaliação do ministro da Fazenda, Guido Mantega, o diretor disse que a política fiscal expansionista é um risco para a inflação.

O diretor comparou o comportamento da trajetória da inflação a uma forma de "V", desacelerando no primeiro semestre e em alta nos últimos seis meses do ano. Apesar da piora da inflação mensal, Hamilton previu que o IPCA acumulado em 12 meses tende a recuar no segundo semestre e fechar 2013 abaixo dos 5,84% registrados no ano passado.

Num discurso considerado duro, que surpreendeu analistas do mercado que vinham alertando nas últimas semana para o risco de o BC afrouxar a política de aperto da taxa de juros por conta do crescimento mais baixo do Produto Interno Bruto (PIB), o diretor afirmou que no Brasil inflação próxima de zero é "exceção e não regra".

O entendimento foi de que o diretor, na divulgação do Boletim Regional em Belém, traçou uma "fotografia" mais realista para a inflação em busca da retomada da confiança, depois da euforia de setores do governo com o IPCA de 0,03% de julho.

Um dos pontos mais fortes da fala do diretor foi em relação ao impacto da política fiscal para os preços. Mesmo negando-se a comentar a avaliação do ministro Mantega, e do secretário do Tesouro, Arno Augustin, de que a política fiscal em 2013 é neutra (sem impacto para a inflação), o diretor afirmou que, no momento, os indicadores são de que a política fiscal é expansionista. Segundo ele, o consumo anual do governo supera os 20% do PIB e tem crescido.

O diretor reforçou a avaliação de que haverá repasse da alta do dólar para os preços - outro ponto que vem sendo minimizado pelo Ministério da Fazenda. Em resposta à percepção de que a perda de fôlego no crescimento da economia poderia, na prática, neutralizar o efeito sobre a inflação e levar o BC a reduzir o ritmo de alta da Selic, Hamilton afirmou que o banco faz uma condução adequada na política monetária como mitigador dos riscos trazidos pela depreciação do câmbio.

O diretor reforçou a avaliação de que a alta dos juros sinaliza para os agentes econômicos a redução do risco inflacionário, aumentando a confiança na economia brasileira. "O ritmo da atividade é condicionado à recuperação da confiança", disse ele, numa espécie de "mantra" que o BC passou a repetir nas últimas semanas.

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