REUTERS/Sergio Moraes
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Para diretor-geral da OMC, EUA estarão engajados para reforma da organização

Roberto Azevêdo diz que G20 abriu portas para avanço de conversas comerciais e que tensões entre com China não se esgotam no plano bilateral

Beatriz Bulla, correspondente

06 Dezembro 2018 | 04h03

WASHINGTON - O diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevêdo, vê os americanos engajados no processo de reforma da organização. A previsão de mudanças e aprimoramento da OMC consta na declaração final que resultou do encontro de cúpula do G20, que aconteceu na Argentina no último final de semana. Nos Estados Unidos para conversas com autoridades americanas, Azevêdo falou com a imprensa brasileira. Na entrevista, ele considerou que após a reunião do G20 foram abertas “muitas portas para avançar nas conversas comerciais”.

“É importante ter uma conversa com as autoridades americanas sobre o que eles esperam (no aprimoramento do sistema de comércio), quais os objetivos que precisam ser alcançados. Ainda estamos muito no começo, foram conversas muito incipientes, mas ficou claro que haverá engajamento norte-americano e que essa conversa tem que continuar”, disse Azevêdo, que classificou as conversas como “muito boas”. O sinal é diferente do que o que os Estados Unidos já adotaram em outros momentos quando o presidente Donald Trump chegou a ameaçar retirar os EUA da organização.

Para Azevêdo, a OMC pode ser palco para ajudar a resolver a escalada na tensão comercial protagonizada por China e Estados Unidos. “Até porque tensões desse tipo não se esgotam em um plano bilateral. Isso não quer dizer que o plano bilateral não seja importante. As conversações entre EUA e China são muito bem-vindas, devem continuar. O canal da OMC complementa isso, porque uma parte das dificuldades entre EUA e China afeta outros parceiros comerciais, que provavelmente terão que ser parte dessa conversa também”, afirmou.

Ele, que é um entusiasta da reforma da organização, não falou em perspectivas ou prazos para mudanças e considerou que a declaração do G20 é positiva pois “reconhece o momento difícil que nós todos estamos vivendo, reconhece que o sistema multilateral da OMC contribui para o crescimento econômico, para a criação de empregos, para o desenvolvimento e reconhece que o sistema multilateral, para continuar dando essa contribuição, pode e deve melhorar”. “Todas essas mensagens são boas, são positivas, o desafio é chegar em Genebra, colocar essa mensagem que foi dada no G20 para todos os membros e ver como nós podemos construir em cima dessa mensagem”, disse.

Na noite desta quarta-feira, 5, em evento em Washington, Azevêdo disse que a reforma deve composta por mudanças “práticas e pragmáticas”. “Qualquer coisa que realmente mude as coisas de maneira significativa e concreta deve ser complexo. Assim sendo, é necessário que tenhamos suporte político e determinação para fazer isso”, disse.

Ele também deu recados aos Estados Unidos. Em discurso, o diretor-geral da OMC afirmou que a maioria dos americanos (74%) concorda que o comércio é positivo ao País, mas a mesma avaliação não é traduzida na percepção das pessoas sobre os benefícios do comércio global no dia a dia. "O comércio está no DNA desse país. A América sempre esteve na vanguarda das nações comerciais modernas no mundo e não tenho dúvida de que continuará", afirmou em discurso, ao receber o prêmio de personalidade do ano do National Foreign Trade Council.

“Temos que nos afastar desse pensamento de que o comércio é uma proposta de soma-zero”, afirmou ele, ressaltando que “todos podem se beneficiar” do comércio entre países.

O diretor-geral da OMC ainda refutou críticas sobre o comércio entre países gerar perda de empregos. Essa foi uma das plataformas de campanha de Trump em 2016, que culpou o antigo Nafta (Acordo de Livre Comércio da América do Norte) pela perda de postos de trabalho nos EUA.

Segundo Azevêdo, não foi o comércio, mas sim a tecnologia, que remodelou o mercado de trabalho. “Um elemento importante é a percepção de que o comércio está tirando os empregos das pessoas e os levando para o exterior. Na realidade,a principal força por trás desta perda de postos de trabalho é a inovação,produtividade, possibilitada, claro, pela tecnologia”, afirmou. “Essas mudanças continuarão acontecendo”, disse ele, que defendeu a adoção de políticas para ajudar na adaptação dos trabalhadores nesse processo.

Perspectivas sobre governo de Jair Bolsonaro

Durante entrevista com jornalistas brasileiros, em Washington, Roberto Azevêdo afirmou tem escutado declarações de otimismo de delegações de outros países com relação à perspectiva de maior abertura da economia brasileira para o comércio internacional.

“Isto é visto de uma maneira geral positiva, mas estão todos ainda esperando para ver quais medidas são efetivamente adotadas. A equipe econômica precisa de tempo para estruturar sua estratégia e colocar para os parceiros comerciais como o Brasil vai se comportar. Tudo isso ainda está em gestação, mas as pessoas estão acompanhando de perto”, afirmou, sobre perspectivas para o governo do presidente eleito, Jair Bolsonaro.

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