Para economista, Brasil deve ter de reestruturar dívida externa

Morris Goldstein, um especialista em crises financeiras do Instituto de Economia Internacional, está convencido de que se o Brasil precisar de mais uns US$ 10 bilhões a US$ 15 bilhões do Fundo Monetário este ano, além dos US$ 9,9 bilhões a que deve ter acesso a partir de amanhã, não terá maiores problemas para conseguir o crédito adicional. Mas o economista, que já trabalhou no FMI, estima em 70% as chances de o País vir a ser forçado a fazer uma reestruturação de suas dívida externa até o fim de 2003.Goldstein reconhece que não é especialista em Brasil. "Mas entendo de crises financeiras internacionais e sei que, nos últimos 25 anos, apenas um país, o Chile, conseguiu superar uma situação de finanças externas difícil como a do Brasil sem reestruturar sua dívida externa". Ele acrescentou que não lhe dá nenhum prazer fazer esse tipo de previsão. "Gostaria de pensar de forma diferente e espero, sinceramente, que esteja errado sobre o Brasil", afirmou. Para o economista, nenhuma das duas posições que dominam o debate político no País são Brasil são persuasivas. A primeira, que tende a ser enfatizada pelos simpatizantes de Luiz Inácio Lula da Silva, o candidato do PT ao Planalto, é que uma renegociação da dívida fará os problemas financeiros do Brasil desaparecerem" A outra, do governo, é que a turbulência atual é apenas reflexo "do nervosismo provocado pela vantagem de Lula nas pesquisas e que a dívida, em si, não é um problema. "Claramente, as preocupações dos investidores aumentarão se eles se convencerem de que Lula ganhará as eleições, porque há dúvidas sobre se ele manterá o saldo fiscal primário", explicou ele. Da mesma forma, a maioria dos analistas e investidores reconhece que "a situação do Brasil é muito melhor do que a da Argentina, porque o país tem uma política de câmbio sensata, a política monetária tem sido bem conduzida, a política fiscal tem sido razoavelmente responsável, o País possui uma equipe econômica sólida e experiente e tem tido um bom desempenho sob o programa do FMI". Mas, segundo Goldstein, "há um elefante na sala, sobre o qual ninguém está interessado em falar, mas que é principal razão pela qual o risco Brasil estar hoje acima de 12% acima dos papéis do Tesouro. O problema, disse ele,"é o tamanho da dívida brasileira". A relação entre a dívida e as exportações, de 400%, é menor do que os 500% que atingiu na Argentina, mas isso não significa que a situação seja significativamente melhor. "A relação entre a dívida e o PIB é bem mais favorável, mas menos relevante, porque a premissa, quando se usa o GDP como parâmetro, é que o País possa facilmente transferir recursos do resto da economia para as exportações, e não é esse o caso no Brasil, como não era na Argentina". Quanto à dívida interna, que também é alta e precisa a ser constantemente rolada, o argumento de que se trata de um mercado muito líquido, em que todo mundo é investidor, não convence Goldstein. "As pessoas detêm essa dívida enquanto acreditam que serão pagas, mas a partir do momento em que começa a haver dúvidas, aparecem os problemas na rolagem", disse. Nos dois casos, pesa também no cenário de Goldstein a piora da economia brasileira desde o ano 2000, com diminuição do crescimento de 4% para 2% , taxas de juros ainda altas, a queda pela metade dos investimentos estrangeiros diretos, crescimento acanhado das exportações, um déficit de conta corrente que continua na casa de 4% do PIB e enormes necessidades de financiamento externo para fechar as contas nos próximos dois anos. O que fazer? "Normalmente, uma solução é o governo tentar tranqüilizar as pessoas dizendo o que vai fazer para enfrentar a situação", disse Goldstein. "O problema é que, por causa das eleições, esse tipo de garantia vale menos hoje porque ninguém sabe se as pessoas que a estão dando vão continuar mandando". As alternativas de medidas de curto prazo são todas complicadas e custosas, lembrou o economista. Além disso, o panorama regional e internacional não é favorável: às crises na Argentina, no Uruguai e na Venezuela, somam-se os problemas de governança corporativa nos Estados Unidos (Arthur Andersen, Enron), as tensões produzidas pelos conflitos entre Índia e Paquistão e no Oriente Médio, a guerra contra o terrorismo e o aumento do protecionismo nos EUA, acrescentou ele. "Há uma forte aversão ao risco e, se os investidores olharem para o exterior, estarão mais interessados em por seu dinheiro na China, na Coréia do Sul, na Rússia do que na América Latina". Por tudo isso, Goldstein vê como difícil a possibilidade de o Brasil conseguir atravessar o próximo par de anos mantendo seu atual fardo de endividamento. "Obviamente, ninguém quer dizer isso - o Fundo, porque não que ser acusado de ser o responsável pela crise, o Tesouro, porque não que mais uma crise no continente, o governo e o pessoal de Wall Street, porque tampouco lhe interessa", afirmou. O economista compara a situação do País com a da pessoa que carrega uma dívida muito alta no cartão de crédito. "O sujeito pode estar fazendo tudo direito, honrando todos os pagamentos, mas sua margem de manobra é muito limitada - e, de repente, sua mulher fica doente ou acontece alguma outra coisa fora de seu controle...", disse ele. No caso do Brasil, a briga em família que o País viverá até definir o sucessor do presidente Fernando Henrique Cardoso aumenta as incertezas porque uma questão central da disputa presidencial é a da responsabilidade pela dívida, argumenta Goldstein. Para Lula e seus simpatizantes, o tamanho da dívida e a possibilidade de o Brasil vir a ter que renegociá-la comprovam o fracasso da atual política econômica. "Ocorre que o desafio que o Brasil poderá ter que enfrentar é reestruturar, mas mantendo e aprofundando as políticas fiscal e monetária do atual governo", disse Goldstein. "Uma reestruturação que não seja acompanhada por políticas fiscal e monetária responsáveis, com metas de inflação, e por um forte trabalho para aumentar as exportações, seria perda de tempo". Por essa razão, o economista dá um conselho ao candidato presidencial do PT. "Em vez de criticar o Armínio Fraga, o Lula deveria convidá-lo para jantar".

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