Para economistas, Copom terá de amenizar efeitos da crise

Segundo analistas, conselho terá difícil missão de evitar que País caminhe para recessão nos próximos meses

Jacqueline Farid e Monica Ciarelli, da Agência Estado

20 de janeiro de 2009 | 15h24

A comemoração dos dez anos do sistema de inflação marca também uma guinada no foco da política monetária brasileira. Na opinião de economistas, o Conselho de Política Monetária (Copom) vai ter que colocar a inflação em segundo plano a partir da reunião que se inicia hoje e se concentrar na difícil missão de evitar que o País caminhe para uma recessão nos próximos meses como reflexo direto da crise internacional.   Veja também: Desemprego, a terceira fase da crise financeira global De olho nos sintomas da crise econômica  Dicionário da crise  Lições de 29 Como o mundo reage à crise    "O foco agora mudou, o Copom não tem que se preocupar no momento com a inflação, tem que deixar a economia funcionar, a meta (de inflação) já está garantida para este ano", alerta o ex-diretor de política monetária do Banco Central e chefe do departamento de economia da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas. Ele acredita em corte, amanhã, de 0,75 ponto a um ponto na Selic.   O economista Braulio Borges, da LCA Consultores, também ressalta o importante papel que o BC vai desempenhar para amenizar os efeitos das turbulências internacionais no País. "A crise é de confiança e quem tem o poder de reverter as expectativas é a política monetária", avalia. Para ele, que também acredita em corte, amanhã, de 0,75 ponto na Selic, avalia que "se o BC for agressivo no corte da Selic, isso poderá ter o efeito de recuperar a confiança dos empresários e investidores e levar a uma recuperação dos investimentos a partir do segundo trimestre".   O economista-chefe da XP Corretora, Rossano Oltramari, concorda que o atual momento exige do Banco Central uma atenção maior para a recuperação da atividade econômica. Ele lembra que a derrocada no preço das commodities permitiu ao Banco Central travar uma luta mais tranqüila para segurar a inflação. Por isso, o foco das preocupações passou a ser o ritmo de atividade. Mesmo diante desse novo cenário, Oltramari acredita que o Banco Central comandado por Henrique Meirelles não deve abandonar sua postura conservadora dos últimos seis anos. "Acredita que a cautela será mantida. Acho que haverá cortes na Selic para estimular a economia, mas, esses cortes devem ser graduais", ponderou. Segundo ele, o Copom deve aprovar amanhã uma redução entre 0,5 e 0,75 ponto percentual na taxa básica de juros brasileira.     No ano de 2008, que registrou até setembro forte aquecimento na economia, no emprego e na produção industrial, a política monetária esteve integralmente voltada para o combate à inflação, que até julho ameaçava ultrapassar o teto (6,5%) da meta inflacionária. A Selic iniciou o ano em 11,25% e chegou a dezembro em 13,75%, com quatro elevações nos juros definidas pelo Copom ao longo do período.     A história a ser contada em 2009 promete ser muito diferente. O ano se inicia com a taxa em 13,75% e, segundo as projeções divulgadas no relatório Focus desta semana, a estimativa da taxa Selic no final de 2009 caiu de 11,75%, do relatório anterior, para 11,25%. Se confirmada, a taxa chegará ao final deste ano exatamente no mesmo patamar em que fechou 2007, quando abriu espaço para o bom desempenho econômico registrado no ano passado.   As projeções para o IPCA, índice de inflação que serve de referência para o sistema de metas no Brasil, corroboram as expectativas de corte, já que também caíram no Focus divulgado ontem, com as projeções para este ano passando de 5,0% para 4,80%. Com a queda nos preços das commodities e o forte desaquecimento na demanda interna e externa, o consenso entre analistas de mercado é que, pelo menos no médio prazo, a inflação foi retirada do topo da lista de preocupações com o cenário econômico.   Mesmo com as elevações ocorridas no ano passado, a taxa Selic chegou ao início de 2009 sendo 11,75 pontos abaixo do patamar do primeiro ano do governo Lula. Em janeiro de 2003, ano de recessão para o País e no qual a Selic teve papel fundamental para conter a escalada inflacionária, a taxa era de 25,50%, já com aumento de 0,50 ponto em relação à taxa do último mês do governo Fernando Henrique Cardoso (25,00%).

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