Marcos Corrêa/PR
Marcos Corrêa/PR

Para economistas, ainda é cedo para decretar fim da recessão

Apesar das comemorações de Temer e Henrique Meirelles com fim de resultados no vermelho, analistas ponderam que situação ainda é preocupante

Anna Carolina Papp, O Estado de S.Paulo

01 Junho 2017 | 12h31

Apesar das comemorações do presidente Michel Temer e do ministro da Fazenda Henrique Meirelles de que a alta do PIB após oito trimestres seguidos no vermelho crava o fim da recessão – a mais longa da história do País –, economistas ponderam que o resultado deve ser analisado com cautela e que o ritmo da recuperação ainda é incerto, sobretudo com a crise política desencadeada com as recentes delações da JBS.

Logo após a divulgação dos resultados do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre de 2017, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), Temer escreveu em sua conta no Twitter que "acabou a recessão". O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, em nota, classificou o dia como "histórico". "Depois de dois anos, o Brasil saiu da pior recessão do século", afirmou. 

O Brasil entrou na chamada recessão técnica no segundo trimestre de 2015, quando acumulou dois trimestres consecutivos  de queda do PIB. Economistas explicam, porém, que a "dobradinha negativa" não é a única premissa utilizada para identificar uma recessão econômica – e tampouco o seu fim.

Segundo o critério utilizado como base pelo Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), seriam necessários dois trimestres consecutivos de PIB positivo para caracterizar uma reversão do quadro recessivo. "Esse é um critério técnico, uma regra de bolso, mas que não necessariamente é um bom instrumento de datação. Pelo seguinte motivo: recessões e expansões são caracterizadas por aumentos e quedas no nível generalizado de atividade da economia", afirma Paulo Pichetti, coordenador do IPC Brasil do Ibre-FGV e membro do Codace.

Para exemplificar que o resultado do PIB não deve ser utilizado isoladamente como critério, ele relembra a datação do atual ciclo de crise econômica, que se iniciou oficialmente pelo Codace no segundo trimestre de 2014 – embora o período tenha sido seguido por dois outros trimestres de estabilidade antes que se iniciasse a longa sequência de contrações.

 

O economista Affonso Celso Pastore, também membro do Codace, afirma que é “extremamente prematuro” analisar o resultado como evidência para o fim da recessão, tanto sob o ponto de vista técnico como em uma análise mais ampla do cenário econômico. "Nós tivemos um crescimento do PIB da agricultura que é o maior da história. Sem ele, o PIB não teria subido 1%, mas sim 0,2%. Isso não irá se repetir no segundo trimestre, de forma que essa força desaparece", observa. "Além disso, é preciso olhar para os indicadores do segundo trimestre que já existem, como produção industrial e vendas do comércio, e todos eles mostram ainda uma economia ainda muito fraca. Há, portanto, um risco muito grande de que haja uma queda do PIB no segundo trimestre." (leia a entrevista completa)

Para a economista Monica de Bolle, pesquisadora do Instituto Peterson de Economia Internacional, o diagnóstico de fim da recessão é não só "falacioso", por não atender aos critérios utilizados pelo Codace, mas "prematuro". "Ao contrário do que o Meirelles falou, não há nada histórico no dia de hoje, pois o resultado positivo do PIB se deve inteiramente ao setor agropecuário, com a supersafra. O restante ainda está todo no vermelho, tanto do lado da produção como do lado da demanda – com exceção das exportações, que em parte também refletem a safra recorde", observa.

Ela também destacou as incertezas geradas pela crise política,com as delações da JBS, que envolvem o presidente Michel Temer. "O governo Temer se dividiu no início do segundo trimestre entre período pré-Joesley e o pós-Joesley. Aí é que a gente vai saber de fato o que está acontecendo e como a economia está reagindo", afirma.

Cenário. Para Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria Integrada, a crise política deve afetar variáveis mais sensíveis a confiança, como investimento, sobretudo em bens de capital, mas deve ter influência pequena no resultado do PIB como um todo. "Temos fatores determinantes um pouco melhores para consumo, como queda de inflação, aumento do rendimento médio real e o crédito, que mostrou uma reação já em janeiro, e isso deve equilibrar a conta do número final", afirma. A consultoria projeta crescimento do PIB de 0,3% para 2017.

 

Ela reforça que a saída de uma recessão depende de uma recuperação consistente da atividade econômica, que não esteja calcada em apenas um setor, como agronegócio.  "Temos de fato uma diminuição do ritmo de queda, uma melhora relativa em curso, mas o PIB do próximo trimestre ainda deve ser negativo", avalia. "Considerando a queda de inflação e de juros, essa recuperação deve ficar mais evidente apenas no segundo semestre", diz. 

ENTENDA: O que é o PIB e como ele é calculado?

Já o economista Roberto Troster aponta que a avaliação depende da base de comparação. "Se você medir o primeiro trimestre deste ano com trimestre anterior, o PIB é positivo. Porém, se você medir com o mesmo período do ano passado, o resultado ainda está negativo. É preciso olhar o cenário como um todo", observa. Na comparação do primeiro trimestre deste ano com os primeiros três meses de 2016, houve queda de 0,4%.

Para a coordenadora de Contas Nacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Rebeca Palis, é preciso "esperar para ver o que vai acontecer neste ano ainda" antes de afirmar que a recessão ficou para trás.

"Tivemos um crescimento no primeiro trimestre, até expressivo, só que contra uma base reduzida. Tivemos oito trimestres seguidos de queda. Então vamos ver o que virá aí para a frente", afirmou.

Questionada sobre os efeitos da crise política nas contas do segundo trimestre e também sobre os indicadores antecedentes mais fracos, Rebeca respondeu que "tudo influencia"./Colaboraram Daniela Amorim, Fernanda Nunes e Vinicius Neder

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