Para economistas, estabilidade do câmbio é transitória na Argentina

Faz duas semanas que a cotação do peso argentino frente ao dólar vem se mantendo entre 3,50 pesos e 3,60 pesos, depois de ter atingido, 15 dias atrás, o pico de 4 pesos por dólar, em meio a um grande nervosismo dos mercados. Porém, um grupo de economistas consultados pela Agência Estado não acredita que essa tranqüilidade seja permanente, prognosticando que a volatilidade desse tipo de câmbio continuará, seguindo o ritmo da incerteza política e econômica, e prevendo valores entre 4 pesos e 6 pesos por dólar, em dezembro próximo. Eles destacam, também, que essa estimativa de um valor mais fraco ao final do ano pressupõe um cenário controlado e que, na ocorrência de um descarrilamento da situação argentina, o dólar poderá não ter teto.Desde que foi implantada a flutuação do peso em relação ao dólar, em janeiro último, no primeiro dia, 11 de janeiro, a moeda saltou para 1,70 peso para um dólar. Daí em diante, a cotação do dólar enveredou para um caminho ascendente, chegando, em 25 de junho passado, a 3,96 pesos, dois dias depois que o então titular do Banco Central, Mario Blejer, anunciou sua renúncia, e quando o ministro da Economia, Roberto Lavagna, iniciava uma viagem a Washington para uma visita ao Fundo Monetário Internacional (FMI), com uma percepção de péssimas perspectivas no mercado.Porém, já faz 15 dias que o dólar se mantém estável, em uma média de 3,60 pesos, retornando aos níveis que dois meses atrás."O comportamento do dólar dependerá do que ocorrer com as liminares judiciais que visam a retirada dos depósitos do corralito, da questão tributária, da quantidade de dólares que entrar no país com o pagamento das exportações". opina o economista Roberto Cachanovski.Tradicionalmente, agosto culmina o período do ano de maiores exportações do setor agrícola, e o Banco Central disporia, então de menos dólares para intervir no mercado.A questão das liminares judiciais aparece como um dos pontos chave. Cachanovski explica: "Há um ritmo de saída de depósitos dos correntistas liberados pela justiça de 2.500 pesos ao mês, e para enfrentar isso os bancos têm compulsórios mais dinheiro em caixa no valor de 6,8 bilhões de pesos. Isto significaria que, em dois meses, os bancos ficariam sem dinheiro. Certamente, a suposição é que o Banco Central os vá ajudar com descontos, mas se a saída de depósitos continuar nesse ritmo, então é o Banco Central que ficará sem reservas para o fim do ano. E é o tipo de câmbio sem controle".Há meses que o governo de Eduardo Duhalde tenta negociar com a Corte Suprema de Justiça uma sentença definitiva que detenha as ações judiciais dos correntistas. Cachanoviski estima que o dólar deverá estar entre 5 pesos a 6 pesos em dezembro.Carlos Perez, da Fundación Capital, acha que o que levou o dólar a ficar mais estável atualmente foi a melhora na relação com o FMI e o anúncio da antecipação das eleições. "Além disso, acrescentou ele, influiu muito a melhora na política monetária. O Banco Central tem hoje tem uma emissão diária média de 35 milhões de pesos, enquanto no período abril-maio isso chegava a 100 milhões diários".Mas o economista ressalta que a estabilidade desse tipo de câmbio é provisória: "em absoluto, não há garantias de que o programa monetário vá se cumprir, nem que se poderá conter as pressões para o aumento dos gastos públicos. Se não se tem a base de emissão e se gasta para o futuro, não se pode falar em previsibilidade".Perez diz que é "ridículo" fazer uma previsão para dezembro e ressalta que "há 50% de probabilidade de um valor de 4,10 pesos e 50% de possibilidades que o cenário argentino seja traumático".A opinião do economista Eduardo Curia é parecida. Ele acrescentou que as convenções internas (primárias) de novembro "pesarão muito. Mesmo que o Partido Justicialista não consiga impor um candidato mais moderado, vai impor Carlos Menem com suas idéias de dolarização, que por não contar com apoio interno nem externo, causará um efeito negativo de puxar mais votos para a esquerda, a qual, de sua parte, também não tem uma proposta. Tudo isso deve gerar uma grande incerteza".Orlando Ferreres, da Ferreres & Asociados, acredita que o dólar se situará o valor de 4,50 pesos em dezembro, mas "desde que haja uma flutuação ordenada, não haja demasiados problemas na área social, que se consiga rolar o vencimento da dívida e que as eleições se desenvolvam de forma tranqüila". "Tudo isso - adverte o economista - somado ao fato de que não aconteça um desastre no Brasil nas eleições que possa contagiar a Argentina".Leia o especial

Agencia Estado,

19 de julho de 2002 | 20h51

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