Para economistas, inflação do País não está fora de controle

Analistas do mercado avaliam que, apesar da atual aceleração, preços operam dentro da meta do governo

Carolina Ruhman, da Agência Estado,

20 de maio de 2008 | 14h43

A inflação é um assunto sério, mas economistas avaliam que ela não está fora de controle. "É verdade que a inflação vem acelerando, mas ela opera dentro da meta", ressalta Roberto Padovani, estrategista sênior de investimentos do banco WestLB no Brasil. Ele reconhece que as expectativas estão piorando, mas chama atenção para o fato de que as previsões para a inflação estão migrando para o centro da meta, de 4,5%. "As expectativas de longo prazo continuam perto da meta", destacou, acrescentando que "a inflação corrente não está contaminada pelas expectativas futuras".   Veja também: Inflação pelo IGP-M quadruplica, em linha com o esperado Entenda a crise dos alimentos  Entenda os principais índices de inflação     "O Banco Central tem a inflação sob controle", concorda Marcelo Salomon, economista-chefe do Unibanco. "A banda tem que ser usada", avalia, referindo-se ao fato que a meta de inflação do País é de 4,5% e pode oscilar 2 pontos porcentuais para cima ou para baixo. O economista acredita que a aceleração das pressões sobre os preços está relacionada tanto aos choques de oferta internacionais quanto à demanda acelerada no Brasil. "A ação do BC deve ser eliminar os efeitos secundários do choque", disse.   Salomon prevê que o atual ciclo de aperto monetário deve levar a taxa básica de juros, a Selic, para 14,25%, um aumento total de 3 pontos porcentuais. "O efeito maior sobre a inflação só deve vir no ano que vem", ressalta. Ele acredita que o IPCA deve acumular em 2008 uma alta de 5,2% e que o índice deve desacelerar para 4,6% no ano que vem.   Para Padovani, a atuação da autoridade monetária deve ser bem-sucedida. Ele aposta que o IPCA terá alta de 4,8% em 2008 e de 4,5% no ano que vem. Ele cita que ao subir os juros, o BC não só impacta a atividade economia, mas também ancora as expectativas do mercado com a inflação. Este ponto passa pela credibilidade do BC, pois, ao elevar os juros, ele manda uma mensagem aos agentes econômicos e formadores de preços de que a inflação será mantida sob controle, explica Padovani.   Outro fator é o câmbio, no sentido que ao subir a Selic, o BC amplia o diferencial entre a taxa interna e as taxas internacionais, o que provoca uma apreciação cambial e contrabalança as pressões inflacionárias externas.   O economista também acredita que os preços das commodities devem ter um comportamento mais favorável nos próximos meses. "Eles não vão cair, mas vão parar de subir ou subir um pouco menos", prevê, citando a desaceleração da economia global.   Padovani também espera que a economia brasileira cresça um pouco menos neste ano, com a inflação "comendo" parte da renda nacional. Por fim, ele afirma que o aumento dos investimentos no País deve elevar o PIB potencial, o que amplia a capacidade de ofertar da economia.   Alimentos   O economista-sênior da Itaú Corretora, Maurício Oreng, acredita que as pressões estão mais concentradas nos preços dos alimentos e ressalta que a atuação do BC só terá efeito em 2009. Ainda assim, ele aposta que o ciclo de aperto da Selic deve sim trazer as expectativas para baixo. "O BC tem que agir mesmo", declara, ressaltando que "os choques acontecem e não é culpa do BC se a inflação está fora do centro". Oreng aposta que o IPCA deve subir 4,9% em 2008 e desacelerar para uma alta de 4,2% em 2009.   Já Alexandre Schwartsman, economista-chefe do Santander, avalia que a alta da inflação é generalizada e que os preços dos alimentos não são os únicos culpados. "Não é um fenômeno só ligado aos preços dos alimentos. É mais profundo", aponta.   Em sua visão, o avanço das pressões sobre os preços está mais ligada ao aumento do nível de utilização dos recursos da economia, o que tem afetado as expectativas. "O desafio do BC é evitar que a alta da inflação corrente contamine as expectativas lá para frente", aponta, acrescentando que "a briga do BC não é por 2008, é pelo que vai acontecer em 2009".   Superávit   Para ajudar a conter a inflação, é consenso entre os economistas que o governo poderia lançar mão de medidas como o aumento da meta do superávit primário dos atuais 3,8% para 5%. Essa opção, entretanto, não é vista como muito provável. "O governo já devia ter feito", afirma Schwartsman. "Mas cansei de ver balão de ensaio", acrescenta.   "O governo pode, mas não sei se vai", concorda Padovani. Ele aponta que um melhor resultado fiscal ajudaria a conter a demanda e a melhorar o prêmio de risco, provocando assim uma apreciação cambial. O economista do WestLB também cita outras medidas que poderiam contribuir para o controle inflacionário, como a melhora das condições de oferta, a redução da carga tributária e um marco regulatório adequado. "Mas o governo não vem dando sinais de que vai usar alguma delas", ressalta.

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