Para economizar, Japão retoma energia nuclear

Apesar de protestos, governo quer reduzir custo para empresas e consumidores

Denise Chrispim Marin, Enviada Especial/ O Estado de S. Paulo

19 de abril de 2014 | 19h08

A tragédia de Fukushima, em março de 2011, é revivida pelos japoneses desde o momento em que ligam um interruptor a cada manhã. O temor de um novo vazamento de material nuclear tornou-se viral e foi capturado pela oposição ao governo de Shinzo Abe. Quando a conta de eletricidade chega às residências e às empresas, o valor a ser pago causa outro tipo de assombro. Yusuke Suzuki, economista-chefe do Mitsui Global Strategic Studies Institute, paga US$ 300 mensais pelo consumo na casa que divide apenas com sua mulher, em Tóquio. No verão, com o ar condicionado ligado algumas horas ao dia, a conta vai a US$ 450.

O fechamento das 54 usinas nucleares do Japão depois da tragédia de 2011 criou um dos piores gargalos ao plano de Shinzo Abe para estimular o crescimento econômico. Etsuro Honda, assessor especial para assuntos econômicos do gabinete japonês e braço direito de Abe, afirmou ao Estado que o governo vai analisar cada usina e, a partir de meados deste ano, liberará as que sejam comprovadamente seguras. O alívio será quase imediato nos orçamentos de famílias e de empresas, nas contas externas e nos planos de investimento.

Segundo Suzuki, as 54 usinas respondiam pela geração de 25% a 30% da energia consumida no país. Essa parcela foi substituída por térmicas a petróleo, carvão e gás natural. A importação desses recursos – inclusive do Irã, com devida permissão internacional – reverteu o saldo comercial do país.

Se foi positivo em 8,7 trilhões de ienes na média de 2000 a 2011, passou para negativo em 5,8 trilhões de iene em 2012. Para 2013, o Bank of Tokyo-Mitsubishi estima déficit de 9,4 trilhões de ienes. O saldo em transações correntes deverá ser de 6,2 trilhões de ienes no período, graças à repatriação de 17,8 trilhões de ienes em lucros de subsidiárias de companhias japonesas no exterior.

Viés político. "Há uma vastidão de argumentos para religar a maioria das 54 usinas, mas essa questão assumiu um viés político", disse Suzuki, referindo-se à captura da controvérsia nuclear pela oposição e setores políticos aliados ao governo. "Se elas não forem reativadas, aumentará mais o custo da energia, e a indústria perderá competitividade. Será inevitável reativá-las."

A Federação Empresarial do Japão (Keidanren) espera o rápido retorno das usinas, desde que a segurança esteja comprovada e a população local aceite a decisão. Mas não vê possibilidade de isso acontecer em curto prazo por causa das pressões políticas. Um dos líderes contrários à reativação dessas plantas é o ex-primeiro-ministro Junishiro Koizumi, do mesmo Partido Liberal Democrata de Abe. Koizumi apoiou os candidatos de oposição contrários às usinas nucleares na eleição para o governo de Tóquio, em fevereiro. O vencedor, porém, foi o ex-ministro da Saúde Yoichi Masuzoe, apoiado por Shinzo Abe e favorável à retomada da energia nuclear.

Kiyoaki Fujiwara, diretor de Política Econômica do Keidanren, contou que o custo da energia elétrica é crescente no Japão desde 2007. Mas a tragédia de Fukushima acentuou a escalada. A tarifa industrial de energia no país é de US$ 200 por megawatt/hora, segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Nos EUA, fica em cerca de US$ 60, e na Alemanha, o segundo país com tarifas mais altas, de US$ 140 por mw/h. Por isso, setores que usam muita energia e mão de obra, como o automotivo e o eletrônico, foram para o exterior. "Só parte delas vai retornar. Aqui ficaram os segmentos de carros especiais e as indústrias voltadas ao mercado interno", disse.

O economista chefe do Bank Tokyo-Mitsubishi, Takahiro Sekido, tem outra visão sobre o tema energético. Para ele, não se trata de uma questão importante porque as grandes corporações aceleraram, nos últimos três anos, seus programas de transferência de fábricas para países onde a energia é mais barata. "Essas indústrias são independentes do impasse sobre religar ou não as usinas nucleares", afirmou Sekido. "Outros setores vão seguir o mesmo caminho nos próximos cinco anos. Ficarão aqui apenas as sedes das companhias e os centros de pesquisa e desenvolvimento."

Um problema adicional – não menos grave, na opinião do Keidanren – é o aumento da emissão de gases do efeito estufa por causa da substituição das plantas nucleares por térmicas a carvão ou petróleo. Em novembro, o Japão abandonou os compromissos registrados no Protocolo de Kyoto, de 1997. Em vez de reduzir em 25% suas emissões até 2020, com base nos níveis de 1990, o país vai aumentá-las em três pontos porcentuais.

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