Para especialistas, Brasil deve negociar Alca visando AL

A criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) apresenta oportunidades para o Brasil muito além de um maior acesso ao mercado dos Estados Unidos, que importa US$ 1,3 trilhão ao ano. "A indústria brasileira pode também registrar sensíveis ganhos nas exportações para os países da América Latina. Só que, para isso, é preciso estar atento nas negociações para que o Brasil não perca eventuais oportunidades na região", alertou Shanker A. Singham, sócio do escritório internacional de advocacia Steel, Hector & Davis LLP. O mesmo alerta tem sido feito pela embaixadora do México no Brasil, Cecília Soto. A diplomata vem criticando publicamente o fato de o debate sobre a Alca estar centralizado nas relações dos Estados Unidos com outros países, e não nos benefícios de uma maior abertura entre os próprios países da América Latina. "A embaixadora tem razão", concorda Maurice Costin, diretor do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Fiesp. Mas, ainda assim, ele acredita que nada pode substituir o trilionário mercado dos EUA. De janeiro a maio deste ano, para se ter uma idéia, o Brasil exportou para os Estados Unidos US$ 6,815 bilhões, sobretudo em aviões, aparelhos transmissores/receptadores e calçados. No mesmo período, vendeu para os 11 países da Associação Latino Americana de Integração (Aladi) um total de US$ 4,411 bilhões, incluindo os sócios do Mercosul (Argentina, Paraguai e Uruguai). É fato, segundo Singham, que as exportações do País ao mercado latino-americano sofrem com barreiras tarifárias e não-tarifárias. Com a Alca, esse protecionismo tende a desaparecer, pelo menos na área industrial. O México, país com o qual o Brasil firmou recentemente um acordo de complementação econômica, mostra que os ganhos com o livre comércio são, de fato, possíveis. Em janeiro, as exportações foram de US$ 155 milhões, pulando para US$ 219 milhões em maio. Do ponto de vista estritamente comercial, há limites para a expansão do comércio brasileiro com a América Latina. A Venezuela, por exemplo, tem um grande potencial para importar do Brasil. Mas a instabilidade política tem afetado a economia, reduzindo o poder de compra venezuelano. A renda é dificuldade também para a expansão das exportações brasileiras aos países da América Central, cujo poder de compra é baixo. Excluindo os países com instabilidades políticas e econômicas, o Brasil ainda tem muito a ganhar no comércio regional, de acordo com Costin. Mas fora do comércio de bens, ressaltou Cecília Soto, há áreas nas quais o Brasil poderá se beneficiar na região, sobretudo em infra-estrutura. O setor petrolífero do México, por exemplo, tem um programa de investimentos de US$ 14 bilhões neste ano e outros US$ 20 bilhões no ano que vem. Metade dos investimentos é destinado à construção de 47 plataformas de petróleo, que serão licitadas internacionalmente. O Brasil não poderá participar das licitações porque não tem um acordo de compras governamentais com o México. Na prática, o exemplo mexicano mostra que uma eventual resistência do Brasil em negociar a abertura de compras governamentais na Alca por temer uma concorrência dos EUA pode deixar o País fora também de licitações importantes de outros países. "É importante ter todas essas questões em mente", concluiu Singham, que esteve no Brasil para participar de seminário sobre barreiras ao comércio promovido pela Câmara Britânica de Comércio.

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