Brendan McDermid/Reuters
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Para estrangeiro, dívida das empresas preocupa mais que calote do governo

Investidores europeus estão atentos aos pagamentos que companhias no Brasil têm de fazer em moeda estrangeira e não veem risco de insolvência fiscal do governo nos próximos dois anos

Francisco Carlos de Assis, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2016 | 17h56

O mercado europeu está mais atento à dívida das empresas brasileiras do que com a possibilidade de um calote da dívida interna do governo, pelo menos para o período de um a dois anos. É o que observa nas conversas que tem mantido com investidores na Europa a diretora-executiva do Haitong Banco de Investimentos em Lisboa, Portugal, Sandra Utsumi. 

A preocupação dos investidores, segundo Sandra, está relacionada ao fluxo de pagamentos de empresas endividadas em moeda estrangeira (euro e dólar) face ao seu risco de balanço (prejuízo operacional) se o País continuar em recessão e a economia global continuar a desacelerar. "Os downgrades recentes ainda forçaram alguns investidores institucionais a rever a manutenção de papéis brasileiros, pois podem ficar desenquadrados nas regras de alocação nos portfólios de investimento (quando existe restrição a papéis com nota de crédito "junk", ou grau especulativo)", explicou a diretora do Haitong. 

Ela disse ainda que, por outro lado, também observa maior interesse de investidores mais agressivos que acreditam em setores que podem resistir melhor à crise, como exportadores que ainda conseguem gerar resultados positivos e não enfrentam risco de liquidez no mercado. 

"O mercado europeu está mais atento à dívida das empresas brasileiras e vê pouco risco de calote da dívida interna do governo nos próximos dois anos", disse Sandra ao Broadcast, serviço de informações da Agência Estado. Algumas instituições, após a Moody's ter rebaixado o Brasil à condição de economia especulativa, passaram a considerar a possibilidade de um quadro de insolvência fiscal brasileira em seus relatórios.

De modo geral, segundo a economista do Haitong, os investidores qualificados já contavam com a decisão da Moody's. "Depois de toda a saída de recursos dos fundos internacionais do Brasil nos últimos dois anos, o que ouvimos deles é o quanto os ativos brasileiros podem ficar mais baratos antes de virarem oportunidade de novo. Isto é, o Brasil virou um mercado de especulação."

Ainda de acordo com a diretora do Haitong em Portugal, para o investidor estrangeiro existem outras alternativas em países que buscam se descolar do risco global e dos emergentes. Ela cita o México, que anunciou na semana passada uma ação conjunta entre o Ministério das Finanças e o Banco Central com aperto fiscal de 0,7% do PIB e uma elevação da taxa básica de juros em 0,5 ponto porcentual, o dobro do que se esperava para a reunião ordinária. 

A África do Sul, afirma Sandra, também anunciou na semana passada medidas de redução dos gastos públicos. O Chile voltou a subir os juros em dezembro para conter o risco de inflação causada pela desvalorização cambial. "Quanto mais se postergam decisões importantes quanto a disciplina fiscal e controle da inflação, mais a espiral de endividamento fica comprometida, o que amplia o risco de virar uma bola de neve", alerta a economista. 

"O que ouço dos analistas e investidores é que o Brasil suporta mais dois a três anos de recessão sem default", diz Sandra. De acordo com ela, esse cenário não leva em conta a situação da economia internacional. "Caso haja um cenário mundial menos favorável, a volta dos fluxos estrangeiros pode levar mais tempo e o Brasil pode ficar ainda mais limitado do ponto de vista de financiamento e entrar num ciclo de estagflação após a recessão."

Inflação. Para Sandra, o risco de quem aplica no mercado de títulos do Tesouro e fica exposto à inflação alta nos papéis prefixados ficará maior se Banco Central  desistir de perseguir a meta de inflação por muito tempo. "Quando se perde a âncora de inflação, a volatilidade nas taxas pré e pós-fixadas pode acabar por gerar perdas para quem resolve montar uma carteira." 

Entretanto, esses títulos podem ser menos arriscados do que o mercado de crédito corporativo ou ações. "Não vejo risco de calote do Tesouro, pois a saída para o governo seria via inflação mais alta (a volta do imposto inflacionário)", disse.

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