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Para EUA, disputa com Brasil sobre subsídios poderia ter sido evitada

Os produtores de algodão dos Estados Unidos criticam o comportamento do Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC) e declaram que a nova disputa que o País levará à entidade nas próximas semanas sobre os subsídios americanos poderia ter sido evitada. Isso se o Brasil, ao lado de Índia e Europa, houvesse aceitado a proposta da Casa Branca de cortes de tarifas e subsídios nas negociações da Rodada Doha, da OMC, suspensa no mês passado. Para os fazendeiros americanos, não há mais subsídios a serem retirados. Há poucos dias, o Itamaraty decidiu voltar a apelar à entidade máxima do comércio depois que a Casa Branca se recusou a dar qualquer sinal de que iria retirar seus subsídios ilegais. No ano passado, a OMC condenou os subsídios americanos à pedido do Brasil. Mas até hoje, a Casa Branca cumpriu apenas parcialmente as ordens da entidade e retirou de funcionamento programas que representam apenas 15% dos subsídios estatais ao algodão. Agora, uma nova batalha jurídica está preste a começar em Genebra.Para os produtores dos Estados Unidos, nada disso seria necessário. "Se a União Européia, China, Índia e Brasil tivessem oferecido concessões equivalentes ao que os Estados Unidos fez na Rodada Doha, o Congresso americano estaria trabalhando em uma legislação para cortar os subsídios em 60%, incluindo os programas de ajuda ao algodão", afirmou o Conselho Nacional do Algodão dos Estados Unidos. "Em vez disso, a oferta significativa dos Estados Unidos está desaparecendo e o Congresso americano irá debater as leis de ajuda à agricultura - a Farm Bill de 2007 -, usando apenas os tetos permitidos hoje pela OMC que são mais elevados que o teto sugerido pelos Estados Unidos nas negociações", explicou a entidade americana. Cortes maiores Tanto o Brasil quanto a União Européia esperavam cortes maiores por parte dos Estados Unidos nas negociações da OMC. Bruxelas, por não aceitar a proposta americana, também se recusou a cortar mais suas tarifas de importação de produtos agrícolas. Foi, então, a vez da Casa Branca dizer que não aceitava os cortes propostos pela Europa, o que acabou bloqueando o processo e suspendendo a negociação. Entre os brasileiros, as opiniões são bem diferentes da avaliação dos produtores americanos. Helio Tollini, diretor da Associação Brasileira de Produtores de Algodão (Abrapa) afirma que, se a OMC provar mais uma vez que os Estados Unidos estão violando as regras ao subsidiar o algodão, o Congresso americano poderá ser pressionado a aprovar uma nova Farm Bill que preveja cortes na ajuda dada pelo governo ao setor. Já o embaixador do Brasil na OMC, Clodoaldo Hugueney, tenta desvincular o caso do algodão ao fracasso da Rodada. "As negociações da Rodada teriam efeitos de longo prazo. A disputa é para ser cumprida imediatamente", disse. Sigilo No setor privado americano, apesar das críticas ao Brasil, o sigilo sobre o volume de subsídios recebidos é total. O Conselho Nacional do Algodão dos Estados Unidos, por exemplo, levou mais de uma semana para responder a um pedido de entrevista feita pelo Estado. Quando o fez, não respondeu às perguntas enviadas sobre efeitos dos subsídios ou o valor da ajuda anual. "O Conselho Nacional do Algodão acredita que, ao eliminar um componente importante do programa americano ao setor, os Estados Unidos já lidaram de forma suficiente do caso", disse a entidade que reúne os produtores e serve como lobby para garantir os subsídios em Washington. Para o setor, o que já foi feito pela Casa Branca já deixa os americanos em conformidade com a lei da OMC e nenhum novo subsídio precisaria ser retirado. Para o Itamaraty, a avaliação não é verdadeira e quer que OMC agora julgue se os Estados Unidos cumpriram de fato a condenação de retirar os subsídios. Maiores beneficiadas Apesar dos produtores se recusarem a divulgar quanto recebem em subsídios, a entidade americana Environmental Working Group enviou ao Estado uma lista das empresas que mais se beneficiaram dos cofres estatais na produção do algodão nos últimos dez anos. No total, US$ 2,4 bilhões foram distribuídos em apenas um dos programas condenados. O volume de recursos de apenas um programa é equivalente a quase toda a exportação de frango do Brasil para o mundo. Desse total, quase metade foi para apenas dez companhias. A líder é a Allenberg Cotton, do estado de Tennessee, com mais de US$ 180 milhões desde 1995. Em segundo lugar vem a Dunavent Enterprises, com US$ 167 milhões, seguida pela Cargill Cotton, com US$ 155 milhões. A Allenberg, porém, se recusou a falar sobre o assunto dos subsídios com a reportagem. "Não tratamos desses temas com a imprensa", concluiu um funcionário.

Agencia Estado,

11 de agosto de 2006 | 15h19

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