Para europeus, falta "credibilidade" a plano de Duhalde

A Comissão Européia (CE) disse que as reformas econômicas anunciadas pelo presidente argentino, Eduardo Duhalde, são mais "sérias" do que as apresentadas por seu antecessor, mas que "carecem de elementos chaves para a sua credibilidade", como "propostas fiscais concretas, uma clara redefinição do papel e dos objetivos do Banco Central e uma plano crível para preservar a confiança no setor bancário". Numa avaliação sobre a crise argentina, os comissários europeus Pedro Solbes (Assuntos Econômicos), Chris Patten (Relações Exteriores) e Pascal Lamy (Comércio) minimizaram a possibilidade um contágio na região, inclusive no Brasil, mas alertaram "que o mundo não pode ficar indiferente à crise argentina, que pode ficar fora de controle" e que é necessário, o quanto antes, um acordo do país com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Segundo eles, a crise argentina pode ter "sérias implicações para o Mercosul", que "é um fator-chave" para o desenvolvimento da região. O documento de sete páginas elaborado pelos três comissários, obtido pela Agência Estado, será debatido na próxima reunião do conselho de Assuntos Econômicos e Financeiros da União Européia, no próximo dia 22. Com isso, a comissão pretende que os quinze países da UE adotem uma posição comum em relação à crise argentina, e na implementação de medidas de apoio ao país.Desafio políticoA CE observou que os aspectos "heterodoxos e intervencionistas" das medidas - "como a introdução do regime cambial duplo, a moratória da dívida, a violação de algumas cláusulas de tarifas de empresas privatizadas e a possível adoção de restrições comerciais" - são motivos adicionais de preocupação. "A desvalorização e a redenominação dos ativos terãO um forte impacto nos bancos domésticos e poderão, portanto, evitar que o fim das restrições aos depósitos ocorra logo", disse a CE. "Isso representa o maior desafio político para o governo, pois foi a reação social a essas medidas que derrubou os dois governos anteriores." Além disso, a CE alertou que, como a economia está altamente dolarizada e a desvalorização irá prejudicar ainda mais a credibilidade no peso, "não está claro se a tentativa do governo de ´repesificar´ a economia vai obter sucesso".A CE acredita que a Argentina corre o risco de ser palco de nova instabilidade, pois a população perdeu quase toda a confiança na classe política, freqüentemente "considerada como corrupta". O fator mais preocupante, segundo os comissários, é "que a população parece estar perdendo qualquer esperança que qualquer governo, de qualquer partido político, consiga superar a crise". Segundo a CE, embora o risco de um golpe militar seja considerado muito pequeno, "num cenário onde sucessivos governos continuam a fracassar na solução dos problemas econômicos, esse risco aumentaria".Acordo com FMIA comissão alertou "que o resto do mundo não pode ficar indiferente à crise argentina, que tem o potencial de ficar fora de controle". A União Européia deveria fazer todo o "esforço possível para estimular as autoridades argentinas a adotarem rapidamente as medidas necessárias para completar um pacote crível". Além disso, "é altamente desejável" que um abrangente programa de estabilização seja implementado, com o apoio do FMI. "As autoridades argentinas devem ser estimuladas a garantir que as medidas a serem adotadas não sejam discriminatórias e respeitem os compromissos do país com os sistemas financeiro e comercial internacionais", disse a CE. "É importante também garantir a preservação da ordem democrática e do sistema jurídico do país". Caso isso, ocorra, a "comunidade internacional deveria estar pronta para oferecer o apoio necessário à Argentina" e a UE deveria examinar os seus instrumentos para avaliar "como ajudar a Argentina e a região".A comissão salientou que a Argentina é responsável por uma pequena fração das exportações européias - 0,6%, ou 6,1 bilhão de euros - e a crise não deverá ter um grande impacto na economia da UE em geral. "Esse impacto poderá, no entanto, ser significativo para alguns países e setores, principalmente a Espanha - que investiu mais de US$ 30 bilhões no país - e os seus setores energético e financeiro, que estão muito expostos na Argentina." A CE observou, no entanto, que as empresas afetadas "representam uma pequena fração da economia espanhola, que continua crescendo acima da média da UE". Por isso, a Espanha mantém "uma posição relativamente forte para suportar os efeitos da crise na Argentina." Além disso, as empresas espanholas se protegeram antecipadamente, afastando o risco cambial nos mercados de derivativos.Contágio e MercosulA CE frisou que embora a queda da demanda na Argentina esteja afetando os países vizinhos, "nos últimos meses eles têm mostrado um impressionante grau de resistência". Os bônus e moedas sul-americanas - "principalmente o real brasileiro, que tem registrado até uma recuperação"- foram muito pouco afetados pela crise. "O descolamento dos preços dos ativos financeiros tem continuado, apesar dos eventos das últimas três semanas, e sugere que os efeitos de contágio poderão ser limitados desta vez." Mas alerta que, se a crise se aprofundar (incluindo possivelmente uma crise bancária, um longo período de inflação e instabilidade política que ameace as instituições democráticas), "os efeito em alguns países vizinhos poderão ser significativos". Segundo a CE, a Venezuela, que possuiu "sérios problemas domésticos", é a mais vulnerável. "O Uruguai e o Paraguai, que dependem muito dos mercados de exportação argentino e brasileiro, também estão expostos".Segundo a CE, o temor de instabilidade política e social, aliado à moratória da dívida e à violação dos contratos de privatização "poderá ter um efeito negativo durável nos investimentos diretos na Argentina e outros países latino-americanos". A comissão disse que algumas multinacionais importantes, entre elas várias do setor automotivo, anunciaram que pretendem sair ou reduzir suas operações no país. "Em alguns casos, os argentinos responsabilizam as empresas estrangeiras pelos problemas econômicos, incluindo tarifas caras para alguns serviços privatizados", disse a CE. "Isso poderá aumentar a relutância internacional em se envolver na Argentina."A CE ressaltou que "um Mercosul mais forte" será um fator chave para o desenvolvimento da região. Atualmente, a UE e o Mercosul estão negociando um Acordo de Associação que inclui uma área de livre comércio. "Diante do impacto catalisador positivo que essas negociações tiveram sobre o Mercosul até o momento, o progresso dessa associação contribuiria para melhoras as perspectivas da Argentina e da região", disse a CE. "A União Européia deverá continuar a demonstrar seu apoio ao processo e às negociações."Leia o especial

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