Para evitar câncer, vigilância sanitária dos EUA aprova batata transgênica

Para evitar câncer, vigilância sanitária dos EUA aprova batata transgênica

Produzido por fornecedora do McDonald's, tubérculo geneticamente modificado enfrenta resistência de consumidores que desaprovam alimentos desse tipo

Andrew Pollack , The New York Times

10 de novembro de 2014 | 12h20

Um tipo de batata geneticamente modificada para eliminar um ingrediente potencialmente prejudicial que surge no intenso calor, necessário para o preparo de batatas fritas, foi aprovada para o cultivo comercial, anunciou na sexta-feira o departamento da agricultura do governo americano (USDA).

O DNA da planta foi alterado de modo a produzir um volume menor de acrilamido quando a batata é frita. Foi demonstrado que o acrilamido provoca câncer em roedores e suspeita-se que seja um fator no desenvolvimento do câncer entre humanos. A nova batata também é resistente aos choques e impactos.

A batata foi desenvolvida pela J. R. Simplot Co., com sede em Boise, Idaho, uma das maiores produtoras de batatas dos Estados Unidos e grande fornecedora de batatas fritas congeladas para o McDonald's. A resistência aos impactos é uma característica que os produtores de batatas buscam há anos, porque os danos - que costumam ocorrer durante o armazenamento e transporte - inutilizam as batatas.

A Simplot também aguarda a aprovação de outra batata geneticamente modificada que resiste às pragas, principalmente aquela responsável pela grande fome da Irlanda, causada por uma colheita desastrosa. O USDA está avaliando a solicitação.

A aprovação só é válida para o cultivo nos EUA. Outros países têm suas próprias regras - algumas delas muito mais rigorosas - para o cultivo de alimentos geneticamente modificados. A União Europeia, por exemplo, tem se mostrado muito mais relutante à aprovação de organismos modificados.

As batatas são o mais recente gênero de alimento geneticamente modificado a receber aprovação nos EUA. Outros gêneros incluem o milho, soja, alfafa, canola, beterraba, certos tipos de abóbora e abobrinha.

A pergunta agora é se a batata Innate, como é chamada pela Simplot, será adotada pelas empresas de alimentos e redes de restaurantes, levando-se em consideração a oposição aos organismos geneticamente modificados entre alguns consumidores. Os grupos que resistem aos gêneros alimentares geneticamente alterados já pressionaram o McDonald's a rejeitar a nova batata.

Uma batata geneticamente modificada já fracassou em conquistar o público e o mercado. No final dos anos 1990, a Monsanto começou a vender batatas geneticamente modificadas para resistir ao besouro da batata do Colorado. Mas o mercado para tal produto entrou em colapso depois que os grandes consumidores de batata disseram aos agricultores que não cultivassem o novo gênero, de acordo com reportagens da época. A própria J. R. Simplot instruiu seus agricultores a não cultivar as batatas da Monsanto depois de consultar seus compradores das redes de fast-food.

Mas, dessa vez, a história pode ser diferente, porque a batata promete trazer ao menos benefícios parciais ao consumidor, e não apenas para o agricultor. E, diferentemente da Monsanto, a Simplot é uma potência consolidada no ramo das batatas e, supõe-se, teria trabalhado no sentido de aumentar a aceitação do produto por parte dos fregueses da indústria dos alimentos e dos restaurantes.

A Simplot espera que o método de engenharia de sua batata ajude a aplacar os temores do consumidor. A batata não contém genes de outras espécies (como bactérias), como ocorre com muitos gêneros de alimentos geneticamente modificados. Em vez disso, a engenharia genética teve como alvo sequências do DNA que servem para silenciar quatro dos genes da própria batata envolvidos na produção de determinadas enzimas.

Isso não deve convencer os grupos que se opõem ao cultivo desses alimentos, para os quais a alteração no nível das enzimas poderia provocar mudanças imprevistas em outras características da batata.

Ainda não está claro até que ponto isso vai beneficiar o consumidor. Enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) pediu por mais estudos e pela moderação nos níveis de acrilamido nos alimentos, o Instituto Nacional do Câncer diz que os cientistas não sabem ao certo se os níveis desta substância habitualmente encontrados nos alimentos são prejudiciais à saúde humana.

A característica de resistência física da batata Innate é semelhante àquela das maçãs geneticamente modificadas que não oxidam, e cujo cultivo comercial ainda não foi aprovado pelo USDA.

(Tradução de Augusto Calil)

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