Dida Sampaio/Estadão
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Para ex-executivos do BC, fala sobre corte nos juros deixa Ilan de 'mãos amarradas'

Presidente do Banco Central afirmou, em Davos, que 'novo ritmo' de queda da Selic é de 0,75 ponto porcentual

Fernando Nakagawa, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2017 | 20h38

BRASÍLIA - A afirmação do presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, de que o "novo ritmo" para o corte de juro é de 0,75 ponto porcentual não mudou apostas e preços no mercado de juros futuros. Entre ex-diretores do BC, porém, o tom assertivo foi tema de análise. Prevalece a percepção de que a fala não altera o cenário para o juro - previsões já apontavam para o corte de 0,75 ponto em fevereiro -, mas há dúvidas sobre as razões que fizeram Goldfajn vir a público com mensagem tão categórica.

No Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, ele declarou que "0,75 ponto porcentual é o nosso novo ritmo". A fala ocorreu uma semana após a surpreendente redução da Selic para 13%, essa, sim, que mexeu com o mercado.

"Se dependesse de mim, não falaria isso. Ainda que tenha citado que o ritmo pode mudar, o presidente se comprometeu. Acho que houve uma escorregada", diz o ex-diretor de assuntos internacionais do BC, Alexandre Schwartsman.

O ex-presidente Carlos Langoni usa tom mais moderado e diz que a frase deve ser encarada como uma explicação. "Ele está apenas se justificando sobre o corte de 0,75 ponto", diz o atual diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getúlio Vargas. "A ênfase no quantitativo pode até ser interpretada como antecipação, mas acredito que Ilan quis mostrar que a decisão passada não foi artificial, nem irresponsável".

Historicamente, membros do Comitê de Política Monetária (Copom) são incentivados a usar discurso com a chamada "ambiguidade construtiva". Com essa estratégia, a comunicação do BC ajuda na ancoragem das expectativas ao apontar para o cenário provável, mas nunca de forma taxativa. Isso deixa aberta a porta para outros horizontes possíveis - ainda que sejam hipóteses minoritárias. Assim, agentes são encaminhados ao cenário mais provável, mas sem ignorar que quadros alternativos podem se concretizar.

Para um ex-diretor de política monetária do BC, que preferiu falar sob anonimato, o discurso deixou Ilan "de mãos amarradas". "Já tivemos outros maus exemplos. O ex-presidente Alexandre Tombini disse que o juro ficaria próximo do piso histórico, mas as condições mudaram e a taxa nunca mais voltou para aquele patamar", lembra.

A frase assertiva de Ilan Goldfajn vem dias após a onda de críticas sobre a comunicação do BC. Nas semanas que antecederam a reunião do Copom de 11 de janeiro, a maioria dos economistas se posicionou na expectativa de corte de 0,50 ponto. No fim do encontro, porém, a tesoura foi mais agressiva: 0,75 ponto, para 13%.

Entre analistas do mercado financeiro, o BC foi criticado por não ter ajustado expectativas antes da reunião. Ontem, a ata argumentou que os cenários têm "condicionalidades econômicas" e que os agentes têm de ajustar previsões.

Questionado se a frase poderia ser uma tentativa do presidente de corrigir eventual ruído na comunicação, Schwartsman diz que "essa não é a melhor maneira". "Somos treinados a repetir a ata e usar dados, e não a nos comprometer", diz. Langoni, que previa corte de 0,50 ponto, acredita que Ilan tenta deixar claro que o cenário permitia o corte de 0,75 ponto e, por isso, continua apostando na continuidade dos cortes dessa magnitude nas próximas reuniões. "A não ser que haja choque externo, a Selic estará abaixo de 10% no fim do ano", diz o ex-presidente.

Nenhum dos três ex-BCs ouvidos pelo Broadcast mudou previsões após a fala de Ilan na Suíça. 

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