Para Fernando Henrique, pacote de medidas de Dilma é 'boia de afogado'

Ex-presidente critica medidas setoriais e diz que o País deixou de fazer investimentos em infraestrutura para ganhar eficiência

MARCELO PORTELA, BELO HORIZONTE, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2012 | 03h07

Medidas pontuais para incentivar a economia, como o pacote anunciado na quarta-feira pelo governo, são como "boia para salvar quem está se afogando, mas o importante é tirar a pessoa do mar". A analogia foi usada ontem pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) para criticar a redução do juros para investimentos e o aumento das compras do governo, assim como as demais ações adotadas nos últimos meses para tentar incrementar a atividade econômica.

Em palestra para empresários no Encontro Nacional da Indústria da Construção, na capital mineira, o ex-presidente criticou a adoção de medidas de estímulo setoriais, que beneficiam apenas alguns segmentos da economia. "Prefiro medidas que não sejam pontuais. Por que abaixar imposto para indústria automobilística e não para outras?", indagou FHC, referindo-se às reduções do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) concedidas para veículos novos.

O ex-presidente disse entender a necessidade, em certas circunstâncias, da adoção desse tipo de iniciativa, mas acredita que essas ações não acabam com o problema. "O sujeito está se afogando, joga a boia. Mas é boia para salvar afogado. O importante é tirar do mar. Você não vai tirar o Brasil dessa confusão do mundo, que nos atinge agora, senão com medidas mais profundas", declarou.

FHC admitiu que algumas mudanças são difíceis de serem implantadas porque "o conservadorismo espontâneo é muito mais forte que o espírito de aventura e as forças estabelecidas não querem reformar nada."

Incerteza. "Mexer nessas coisas que afetam o conjunto da população a frio não se consegue. Ou há uma crise, e não é bom que haja, ou há o convencimento. Você só apoia as reformas quando elas começam a dar certo, porque em geral não está nem mais no governo", disse.

Porém, ressaltou que a redução na liquidez causada pela crise econômica em países da Europa nos Estados Unidos dificulta o financiamento das exportações brasileiras, já afetadas pela desaceleração da economia chinesa. Para ele, a perspectiva de incerteza só poderá ser superada com medidas para aumento da produtividade que dependem de governo, não de empresários.

Segundo o ex-presidente, isso exige investimentos em transporte, além de redução da carga tributária e do custo da energia.

"Não fizemos os investimentos em infraestrutura necessários para permitir que a economia brasileira aumentasse sua produtividade", afirmou Fernando Henrique. "Como vamos fazer nossa indústria continuar exportando? Não adianta atender a um setor. É preferível medidas mais lineares, que atendam ao conjunto", defendeu.

Para FHC, cada gestão tem suas prioridades - a da sua foi o combate à inflação, afirmou. E, sem citar diretamente o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, lembrou que o País tem um mercado interno poderoso, mas que o governo perdeu um período de bonança no mundo para fazer as reformas necessárias.

Mesmo com as críticas, negou que esteja pessimista em relação ao futuro da economia brasileira. "O Brasil tem mais vantagens relativas que outros países", disse. "Por isso vai continuar investindo", concluiu, referindo-se ao setor privado.

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