Para ficar na história

Circula hoje a última edição do Jornal da Tarde, criado há 46 anos. Nesse período, o JT construiu uma história de inovações no desenho e na linguagem que ajudaram a mudar o jornalismo brasileiro

O Estado de S.Paulo

31 Outubro 2012 | 02h04

A edição que circula hoje, de número 15.409, é a última do Jornal da Tarde, a derradeira de uma trajetória iniciada em 4 de janeiro de 1966 que construiu um capítulo à parte na história da imprensa brasileira. Criado a partir de um sonho que Julio de Mesquita Filho cultivava desde a Primeira Guerra Mundial - fazer um vespertino - o projeto foi delegado a seu filho, Ruy Mesquita, que também deu nome à ideia, escolhendo Jornal da Tarde porque dessa forma soava melhor. Havia a hipótese de se chamar "Edição da Tarde" e, embaixo do título, como se usou até 1986, num tipo menor, 'O Estado de S. Paulo'.

Sua primeira providência, no planejamento do novo jornal, foi convidar o jornalista Mino Carta, primeiro editor-chefe e responsável pela seleção da equipe inicial. A ordem era fazer um vespertino leve e descontraído, para conquistar um público mais jovem, que O Estado de S. Paulo não tinha condições de conquistar. Foi por isso que o Jornal da Tarde nasceu assim "meio moleque".

Entre os profissionais escolhidos a dedo por Mino, havia também veteranos, mas não passava de garotos a maioria dos 51 pioneiros. Eram 50 homens e uma única mulher, idade média de 21 anos, uma equipe convocada em toda parte do Brasil.

A equipe era jovem e barulhenta. Do outro lado do corredor (na verdade, "o túnel do tempo" que dividia duas gerações de jornalismo), o pessoal de O Estado de S. Paulo, tão sério e tão respeitado, olhava os recém-chegados com desconfiança.

Formada a equipe, Ruy Mesquita e Mino Carta começaram a planejar como deveria ser a filosofia do jornal, sem a preocupação de concorrer com o Estado ou qualquer outro jornal em termos de massa de informação. A preocupação era criar uma coisa nova, tanto do ponto de vista gráfico quando do ponto de vista da elaboração de matérias - não com um, mas com vários redatores e repórteres. Os textos deveriam ser ágeis e provocadores, com uma dose de humor que também aparecia em suas primeiras páginas.

A rapaziada do JT virava a madrugada como se estivesse numa festa, jogando bola nos corredores, subindo nas mesas, passando trote nos focas (novatos que chegavam pedindo emprego), tumultuando tudo o que parecia ordem e merecia respeito.

Mas quem parecia tão irresponsável tinha talento e arte. E a prova estava diariamente nas bancas, em cada novo jornal, um vespertino que começou a circular às 15 horas e, vencido pelo trânsito de São Paulo, acabou optando pela manhã. De vespertino ficou o nome, mas não era isso o mais importante. A inovação, o pioneirismo do JT, vieram com sua apresentação gráfica - uma cara totalmente nova, muito branco e muita fotografia - e sobretudo através das grandes reportagens, seu maior segredo. Casamento de Pelé, tragédia de Caraguatatuba, transplante de coração, incêndio do Joelma entraram na história do jornal e garantiram, desde os primeiros anos, consecutivos prêmios de jornalismo que depois iam virar rotina. Como se vê, assuntos sérios, fruto de pesquisa e garra, nada da brincadeira que se esperava de profissionais tão irreverentes e descontraídos.

Era um jornal dispendioso. Até na sua preparação gráfica era muito mais caro. Quem for consultar as coleções de quando ele surgiu, os primeiros números, verá que causou um grande impacto. O jornal chegou a uma coisa inimaginável para a época e para esse tipo de veículo de comunicação: usar a imagem dispensando a palavra na primeira página e com sucesso absoluto. Talvez a principal, a mais marcante, seja a que anunciou a derrota da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de Futebol de 1982, na Espanha.

Quando chegou a crise do petróleo e, com ela, a recessão econômica, os recursos não permitiam investir em grandes reportagens. Na mesma época das dificuldades, surgia outro problema grave para o jornal: a censura imposta pelo AI-5. O JT não aceitou a imposição e reagiu, publicando receitas culinárias no lugar dos textos proibidos, uma ideia de Ruy Mesquita. O governo foi apanhado inteiramente desprevenido e ficou sem jeito de proibir também os textos alternativos. Essa foi considerada uma das melhores fases do JT. Havia uma simpatia enorme, sem divisões. De um lado, o governo; do outro, a massa, a população, todos contra o governo. E o jornal era querido por todos, porque adotava essa atitude.

O Jornal da Tarde nunca foi um veículo de circulação nacional, mas quem quiser estudar a história do jornalismo brasileiro do século passado e deste não poderá deixar de estudá-lo. Um jornal muitas vezes irreverente e brincalhão, sempre jovem e meio moleque, mas também sério e corajoso, capaz de enfrentar a censura e de denunciar corruptos.

Uma de suas marcas foi a estreita ligação com a cidade de São Paulo. O JT inovou na cobertura do noticiário local, deu voz ao paulistano em suas páginas, introduziu uma nova linguagem nas reportagens policiais, que abandonaram o jargão das delegacias, comuns à imprensa da época.

Foi copiado depois que virou referência na cobertura da agenda cultural paulistana. Os cadernos "Divirta-se" e "Variedades" viraram acessório obrigatório para quem quisesse desfrutar do lazer e da cultura de São Paulo.

Também se aproximou da vida econômica do leitor, investindo no serviço, especialmente nos inflacionados anos 1980. O caderno Seu Dinheiro foi pioneiro no trabalho de orientar o leitor sobre as formas de ganhar, economizar e gastar o dinheiro da melhor forma. Foi também o primeiro a dedicar espaço fixo e diário à defesa do consumidor.

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