Para FMI, estímulos de BCs não geraram fluxos de capitais ‘alarmantes’

O risco para os emergentes é a reversão rápida dessas políticas monetárias, mostra estudo

Altamiro Silva Júnior, enviado especial da Agência Estado,

16 de maio de 2013 | 12h34

As políticas monetárias não convencionais de países como Estados Unidos, Reino Unido, Japão e da zona do euro vêm provocando amplos fluxos de capitais para mercados emergentes, notadamente América Latina e Ásia. Esse aumento dos fluxos, porém, não está em níveis alarmantes, de acordo com o estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) chamado Políticas monetárias não convencionais - experiências recentes e perspectivas, divulgado nesta quinta-feira.

O estudo foi o primeiro do FMI dedicado integralmente à análise dessas políticas. Ele havia sido prometido pela presidente da instituição, Christine Lagarde, no final da reunião de primavera do FMI, em abril.

Nesse tipo de política, as taxas de juros são mantidas em níveis muito baixos e os bancos centrais compram ativos no mercado financeiro, injetando dinheiro para estimular a atividade econômica. Em alguns casos, recursos são injetados diretamente nos bancos.

A conclusão dos economistas do FMI é que essas políticas foram eficientes em estabilizar o sistema financeiro, evitar uma deflação nos países desenvolvidos e acalmar os mercados mundiais. Por outro lado, elas têm efeitos colaterais e vêm produzindo consequências mistas em outros países.

O estudo do FMI mostra que o mundo emergente vem recebendo, desde o segundo trimestre de 2009, ao menos US$ 100 bilhões por trimestre de recursos dos países desenvolvidos. O principal risco desse movimento é a reversão rápida e a saída maciça desses fluxos, que podem desestabilizar os mercados emergentes, aponta o FMI.

Em alguns momentos, como o terceiro trimestre de 2009 e o segundo de 2011, os fluxos em direção aos emergentes superaram US$ 250 bilhões. O relatório não divulga os números precisos, mas América Latina e Ásia são mostrados como os maiores receptores desses recursos em todo o mundo, sobretudo em períodos mais recentes, seja em investimento direto, seja em compras de ações ou papéis de renda fixa.

Desde 2008, auge da crise financeira mundial e quando governos de países desenvolvidos, sobretudo os EUA naquele momento, começaram a lançar mão dessas políticas monetárias, o único período em que os fluxos de capital ficaram negativos para os mercados emergentes foi no quarto trimestre de 2010. No final de 2012, os fluxos voltaram a crescer, destaca o documento.

As políticas monetárias foram úteis em restaurar o funcionamento dos mercados financeiros, abalado pela crise de 2008. Com isso, a possibilidade de que riscos piores aparecessem no mundo se reduziu consideravelmente.

Outro efeito positivo foi reduzir as taxas ("yields") pagas pelas empresas nas emissões de bônus e os custos do crédito bancário. Com isso, muitas corporações de mercados emergentes conseguiram acessar os mercados de capitais internacionais pela primeira vez.

Os mercados emergentes também se beneficiaram dessas políticas adotadas pelas nações desenvolvidas, conclui o estudo do FMI. Assim como ocorreu nos EUA, zona do euro e Japão, essas estratégias ajudaram a estabilizar as economias do mundo em desenvolvimento.

Os anúncios dessas políticas pelos governos, sobretudo as primeiras medidas, contribuíram para aumentar os preços de ativos em países emergentes, ressalta o estudo. Já os anúncios mais recentes tiveram menos impacto nos preços, mas contribuíram para aumentar os fluxos de capital em direção a esses mercados.

A recomendação do FMI para os países emergentes é de que os governos fiquem atentos e possam lançar mão de medidas macroprudencias, inclusive no gerenciamento dos fluxos de capital. Estratégias assim podem ser úteis para evitar uma fuga abrupta de recursos.

"Estas políticas foram importantes em assegurar estabilidade econômica e financeira após a crise global. Mas as políticas monetárias não podem fazer tudo. Os governos devem usar esse respiro promovido por essas políticas não convencionais para dar um passo além nas reformas fiscais, estruturais e do setor financeiro que são necessárias", destaca o diretor assistente do FMI, Karl Habermeier, no material enviado à imprensa junto com o estudo.

A adoção dessas políticas levou a presidente Dilma Rousseff a falar de um "tsunami financeiro" que estava prestes a invadir o mundo, e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, cunhou em 2010 a expressão "guerra cambial".

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