Para governo brasileiro, não há muito o que fazer

Possibilidade de ajuda dos Brics é descartada e preocupação é com a queda do comércio entre os dois países

LISANDRA PARAGUASSU / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2014 | 02h04

O governo brasileiro não vê, neste momento, caminhos para ajudar a Argentina, mesmo com a iminência de um default da dívida pública do país vizinho, e nem vê meios para evitar uma queda ainda maior na corrente comercial entre os dois países, caso se confirme o calote técnico, hoje aparentemente inevitável.

A avaliação de uma fonte do governo é que tampouco há espaço para uma ação dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), apesar da tentativa da Argentina de se aproximar do bloco e da criação de um banco de fomento e de um fundo de reservas para ajudar os membros em casos de crises.

"Não temos muito o que fazer", diz um funcionário graduado do governo brasileiro. Também não houve até agora um pedido formal de ajuda.

A superestrutura alternativa ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e ao Banco Mundial, que será homologada pelos chefes de Estado do bloco em Fortaleza, poderia ser uma tábua de salvação para a Argentina, não fossem as restrições já definidas pelo bloco.

Com patrimônio de US$ 50 bilhões e aporte inicial de US$ 10 bilhões, o Banco dos Brics poderá aceitar novos membros, mas não servirá para financiar reestruturações financeiras ou alavancar políticas econômicas e sociais. Seu estatuto prevê empréstimos exclusivamente para projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável.

O FMI dos Brics, chamado de Arranjo Contingente de Reservas (CRA), terá US$ 100 bilhões em reserva, divididos em US$ 41 bilhões da China, US$ 18 bilhões de Brasil, Rússia e Índia e US$ 5 bilhões da África do Sul. Os recursos seriam suficientes para resolver os problemas argentinos, mas não estão à disposição. Apesar de querer ser uma alternativa ao Fundo monetário, estará reservado apenas para membros e, pelo menos por enquanto, não há previsão de adesão de novos países.

Convite. Recentemente, depois de uma visita do chanceler argentino Hector Timmerman a Moscou, o ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, revelou que havia convidado o governo argentino a participar da reunião de cúpula em Fortaleza, daqui a duas semanas. E que haveria interesse do bloco numa integração efetiva da Argentina "um dia". Para o governo brasileiro, os Brics ainda precisam se consolidar antes de pensar em nova expansão.

Até agora, nem mesmo a participação de Cristina Kirchner no encontro em Fortaleza está confirmada. O governo brasileiro, anfitrião, espera a presidente argentina apenas em Brasília, para a reunião entre os Brics e a União das Nações Sul-Americanas (Unasul).

Contaminação. Apesar da iminência de um calote técnico da Argentina, o governo brasileiro tenta passar a ideia de que não há risco direto à economia brasileira, já que o caso seria bastante específico. A crise, diz uma fonte, apenas pioraria um pouco mais a corrente de comércio entre os países, que já caiu 20% apenas de janeiro a maio deste ano. "Teremos de vender para outros lugares", diz essa fonte.

O default argentino dificultaria a volta do país ao mercado internacional, o que pioraria ainda mais a crise econômica e a recessão dos vizinhos.

A maior preocupação neste momento seria o risco do precedente aberto pela Justiça americana ao exigir que a Argentina pague integralmente a dívida com os fundos holdouts.

A decisão pode dificultar a renegociação de dívidas no futuro, com os credores contando com decisões favoráveis como a do juiz federal de Nova York Thomas Griesa.

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