Para governo, dólar tem 'gordura a ser queimada'

Segundo fonte da equipe econômica, o real ficou 5% mais valorizado que as estimativas feitas pelo governo

CÉLIA FROUFE, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2014 | 02h05

BRASÍLIA - A escalada do dólar observada desde maio levou o real a ficar 5% mais desvalorizado do que as estimativas do governo, segundo fonte da área econômica ouvida pelo Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado. A moeda encerrou ontem os negócios a R$ 2,5130.

A avaliação da equipe técnica é que o dólar tem "gordura a ser queimada" em relação ao real. Além do impacto em si para os negócios com a divisa, a valorização tem reflexos diretos sobre a inflação, outro incômodo ao governo. Segundo o IBGE, a inflação atingiu 6,62% nos 12 meses encerrados em outubro, acima do teto da meta (6,5%).

Na semana passada, o Banco Central elevou a taxa básica de juros de 11% para 11,25% ao ano para tentar pôr a inflação de 2015 e 2016 nos trilhos. A medida foi uma surpresa para o mercado, que contava com uma alta apenas no início do ano que vem. A interpretação de economistas foi a de que o BC sentiu o peso do câmbio e precisou agir.

Mais detalhes sobre o que levou o colegiado a aumentar os juros serão divulgados amanhã, em ata da reunião em que a decisão foi tomada. Para a equipe econômica, esse aumento constante do dólar desde maio foi contaminado pelas incertezas políticas do período eleitoral.

"O resultado é que o real está cerca de 5% mais desvalorizado do que apontavam as projeções", disse uma fonte. A expectativa é que, com a definição no Planalto e a retomada da confiança na economia, haja convergência para a "normalidade".

Nomes. Essa tendência passaria também pelas definições das equipes econômica e política no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff. Há muita especulação sobre o substituto do ministro da Fazenda, Guido Mantega. O que se quer no setor financeiro é a nomeação de alguém "amigável" ao mercado. Também é aguardada a decisão sobre a permanência ou não de Alexandre Tombini no BC.

Com esse quadro mais estabilizado, espera-se que a cotação da moeda passe a seguir fatores como a flutuação internacional e o fluxo cambial. O mau humor do investidor vinha sendo traduzido pela cotação do dólar. Quanto mais Dilma se aproximava da reeleição, mais o dólar subia. Quando as pesquisas apontavam que o tucano Aécio Neves tinha chances de se eleger, a moeda desacelerava.

Ontem, o dólar fechou em alta pelo terceiro dia seguido. E pesou sobre esse comportamento o fato de o BC dar sinais, na véspera, de que jogará mais para frente o vencimento de apenas uma parte dos contratos de swap cambial que se encerram em dezembro. Paralelo aos papéis que já estão rodando no mercado, o BC vem promovendo desde agosto de 2013 o que o mercado apelidou de "ração diária", uma oferta constante de dólares para os agentes que quiserem se proteger da alta da moeda. Depois de chegar a ter mais de R$ 20 bilhões de lucro com essas operações desde o início do ano, o BC registrou rejuízo de R$ 18,4 bilhões em setembro. Justamente porque o dólar disparou 9,3% no período.

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