Para governo, fala "desastrosa" de Fraga pressionou o dólar

O estouro do dólar, que atingiu a barreira dos R$ 4,00, causou grande preocupação na equipe do presidente Fernando Henrique Cardoso. No Palácio do Planalto, a avaliação foi de que a especulação que levou à nova alta da moeda norte-americana foi também uma decorrência da entrevista coletiva concedida pelo presidente do Banco Central, Armínio Fraga, no final da tarde de quarta-feira, classificada como "desastrosa" por auxiliares do presidente, que lastimavam o tom usado por ele.O governo entendeu que a forma como Armínio Fraga falou na entrevista deu a impressão de que a idéia do Planalto era transformar o câmbio em cabo eleitoral do tucano José Serra, contra o petista Luiz Inácio Lula da Silva, quando a intenção era exatamente o contrário. O tom das declarações de Armínio Fraga levaram a uma reação imediata do presidente do PT, José Dirceu, que passou a fazer ataques ao governo. "Não era isso que o governo queria. A idéia da entrevista era para acalmar o mercado, só que o efeito foi inverso, pois acabou deixando o mercado ainda mais nervoso", confidenciou um interlocutor do presidente.Mas houve auxiliares do presidente que acharam que Armínio Fraga fez o que podia ser feito e que não extrapolou ou "pisou na bola". Estes auxiliares alegam que o clima de intranqüilidade está instalado no País, não interessando buscar culpados por isso. A reclamação de auxiliares do Palácio soou também como uma forma de o Planalto evitar assumir uma estratégia que deu errado, preferindo repassar a responsabilidade para terceiros - no caso, o presidente do BC.Embora auxiliares do presidente entendam que as incertezas do momento e o debate eleitoral tenham influenciado a alta do dólar, estão convencidos também de que Armínio Fraga não podia culpar Lula, mesmo que indiretamente, pelo que estava ocorrendo no mercado. De acordo com esses auxiliares, ficou parecendo que o presidente se reuniu na hora do almoço com a equipe econômica e, ao final, mandou que Fraga desse aquele recado, atribuindo responsabilidade aos petistas pela alta do dólar, o que acabou tendo um efeito muito negativo.Até mesmo o traje usado por Armínio foi motivo de observações por interlocutores do Planalto: colarinho relaxado, nó da gravata frouxo, manga de camisa arregaçada. De acordo com estas análises, o traje dava a impressão de que o presidente do Banco Central estava exausto, extenuado, cansado e até que havia sido derrotado pelo mercado. Para hoje, o governo achou melhor que todos permanecessem calados, para evitar novos problemas. O próprio presidente, no discurso que fez em São Paulo, na abertura do Salão do Automóvel, preferiu não tocar no assunto, atacando os adversários no campo das idéias, usando a ALCA como pano de fundo.

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