Para investidores estrangeiros, melhor cenário seria vitória de Lula no 1º turno

Não é segredo para ninguém que a maioria dos analistas e investidores preferia até recentemente uma vitória do candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, na eleição presidencial. Mas diante do fraco desempenho do tucano nas pesquisas, que sinalizam uma vitória folgada do presidente Lula mesmo que ocorra um segundo turno, e da tensão política que varreu o País nas últimas semanas, os agentes do mercado externo concluíram que o melhor resultado será uma vitória de Lula no próximo domingo, já no primeiro turno. Há quem acredite que uma "surpresa" no domingo, ou seja, a necessidade de um segundo turno, poderá até ter um impacto negativo perceptível sobre os ativos brasileiros.Vário fatores explicam esse sentimento entre os investidores. Embora considerem Alckmin um candidato mais "pró-mercado", eles consideram que a continuidade de Lula no poder será acompanhada pela manutenção das atuais políticas macroeconômicas ortodoxas. Além disso, os investidores, sempre pragmáticos, temem um acirramento do ambiente político caso a corrida presidencial seja decidida apenas em 29 de outubro. Uma definição já no próximo domingo poderá antecipar a atenção - e a pressão - sobre o plano de governo de um segundo mandato de Lula, que até agora não ficou claro para os investidores, principalmente no que se refere ao campo das reformas estruturais consideradas cruciais para uma boa performance econômica do País nos próximos anos. Além disso, e ainda mais importante, uma vitória de Lula no primeiro turno significará que ele terá, pelo menos em teoria, um pouco mais de força política para formar uma base de apoio no Congresso, além de aliviar o risco de um processo de impeachment e outros estilhaços causados pelo recente escândalo de corrupção em torno do Partido dos Trabalhadores."Do ponto de vista dos mercados, neste momento. o melhor que pode acontecer no domingo é uma vitória de Lula no primeiro turno", disse à Agência Estado Ingrid Iversen, estrategista do fundo de investimentos Insight Investments. Segundo ela, os negócios com ativos brasileiros estão reduzidos, com os investidores aguardando os eventos do próximo domingo. "Se a eleição não for definida neste fim de semana, deverá haver até alguma venda de ativos brasileiros, pois isso seria uma surpresa para os mercados e abriria espaço para mais algumas semanas de potencial volatilidade política e incertezas", disse.Iversen observa que essa avaliação é reforçada pelo fato dos investidores não verem grandes diferenças nos programas de Lula e Alckmin para a economia. "Talvez num segundo turno os detalhes das propostas de cada candidato ficaria mais clara, pois até agora fica difícil diferenciar", disse. "Mas no atual estágio, a expectativa é que o processo eleitoral seja definido o quanto antes."A preocupação com a governabilidade também pesa na torcida dos mercados por uma definição já neste domingo. "Primeiro turno significa um Lula mais forte e segundo turno sinaliza um Lula mais fraco", afirmou o economista sênior do banco Dresdner Kleinwort, Nuno Camara. "E o Brasil precisa de um governo forte,para promover reformas e melhorar o desempenho fiscal o mais rapidamente possível." Camara observa que mesmo com um segundo turno, as chances de vitória de Alckmin seriam reduzidas. "Mais um mês de campanha eleitoral serviria principalmente para aumentar o abismo entre as principais forças políticas do país."Pressão pós-eleitoralMas mesmo que as pesquisas mais recentes sejam confirmadas, e a sucessão presidencial encerrada no domingo, isso não significa que haverá uma onda de otimismo sustentável tomará conta dos investidores. A agenda de reformas de um segundo mandato de Lula, que por enquanto continua obscura, se tornará numa das obsessões do mercado e passará cada vez mais a ter um impacto direto sobre as percepções de risco do país. Prova disso são os comentários dos bancos estrangeiros hoje sobre o resultado fiscal do setor público de agosto, que superou as expectativas dos analistas. Embora ninguém duvide que a meta de superávit primário 4,25% do PIB será atingida neste ano, todos criticam o aumento de gastos e a qualidade do perfil orçamentário. E alertam, com unanimidade, que isso precisa ser corrigido, com reformas e melhor gerenciamento. "É preciso que, após a eleição, as reformas saiam do vago campo das promessas e se tornem perspectivas concretas", disse Iversen.

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