Para investidores, expectativas de ganho ficaram altas demais

Perguntados se a alta das ações da internet era sustentável, apenas 14% dos entrevistados não viram uma bolha no setor

Annie Lowrey, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2014 | 02h07

Recentemente, a Bloomberg perguntou a investidores, analistas e traders se as valorizações de ações de internet e de mídia social eram insustentáveis. Somente 14% não viram uma bolha. Mesmo algumas empresas de tecnologia argumentaram que as expectativas ficaram excessivamente altas. Por exemplo, o diretor-presidente da Netflix, Reed Hastings, disse recentemente que sentia uma certa "euforia" fazendo subir o preço da ação da empresa. "Temos uma sensação de impulso, de investidores elevando o preço da ação mais do que poderíamos normalmente", disse Hasting. "Não há nada que possamos fazer a esse respeito."

Mas relativamente poucas empresas de tecnologia efetivamente abriram seu capital durante este boom, o que não foi o caso no fim dos anos 90: com tanto dinheiro corporativo disponível, há menos necessidade de levantar capital nos mercados públicos. E os investidores parecem mais cautelosos. Nesta primavera americana, muitos participantes no mercado abandonaram ações de companhias de biotecnologia, de redes sociais e de nuvem de alto crescimento, mas voláteis, observou Kathleen Smith da Renaissance Capital, uma empresa de consultoria de investimentos em IPOs. "Isto foi uma correção necessária que muitos vinham esperando depois de uma forte e sustentada alta", disse ela. É um sinal de disciplina do investidor. E, embora o movimento vendedor tenha provocado uma queda nos preços, os prejuízos foram limitados. Uma quantidade bem menor de americanos está hipotecando suas casas para comprar e vender ações no mesmo dia, como fizeram nos tempos da Pets.com.

O efeito mais imediato de um estouro do setor de tecnologia - e um que eu imagino que seria acompanhado de certa dose de deliciosa schadenfreude (pequeno regozijo com a desgraça alheia) fora do Vale do Silício - seria talvez na economia local. Subitamente quebrados, os rapazes das startups deixariam de comprar carros elétricos, apartamentos, e dispendiosos sucos esverdeados. O preço das moradias poderia despencar; butiques e revendedoras de carros de luxo poderiam fechar; iates e casas de veraneio no Havaí poderiam ter suas hipotecas executadas. Mas o efeito provavelmente seria limitado a certas áreas da Califórnia do Norte, Nova York, Boston, e afins.

A verdade é que a maioria dos americanos tem pouca interação com o boom de tecnologia de dinheiro graúdo e poucos empregos, por isso ela pode estar protegida do pior de um estouro de tecnologia, ao menos no pé que as coisas estão. Mas isso é um pequeno consolo: é pena que uma dos setores mais vibrantes, explosivos e criativos da economia - e um dos poucos que está criando milionários - pareça mais um jardim murado que um parque público.

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