Para Ipea, era dos megassuperávits está de volta

O Brasil pode estar voltando ao período de megassuperávits comerciais, como ocorreu no período de 1984 a 1994, em que a diferença das exportações sobre as importações chegou a atingir US$ 20 bilhões por ano. A avaliação é do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), órgão vinculado ao Ministério do Planejamento. Naquele período, o Brasil chegou a gerar o terceiro maior superávit comercial do mundo, só superado pelo Japão e Alemanha. Através de "Nota de Conjuntura" divulgada hoje, o Ipea considera que os megassuperávits resultam, em parte, do virtual estancamento dos financiamentos externos ao País. Segundo o documento do Ipea, quando o País "possui condições favoráveis de financiamento externo, o déficit em conta corrente surge naturalmente, dos movimentos da taxa de câmbio determinada em regime de livre flutuação". Quanto há reversão das condições de financiamento, "possivelmente pela percepção de que os déficits em conta corrente conduziam a uma acumulação excessivamente rápida de passivos externos", ocorre a recuperação dos superávits comerciais. Ou seja, enquanto o Brasil tem acesso a financiamentos de bancos estrangeiros os superávits comerciais tendem a cair, ocorrendo o inverso quando há dificuldades de financiamento.O mais surpreendente da rápida recuperação da balança comercial brasileira, na avaliação do Ipea, é que ela ocorre em período de forte contração do comércio mundial. No período de janeiro a julho deste ano, por exemplo, os Estados Unidos reduziram suas exportações em 4,2% em relação a igual período do ano passado. O Brasil, porém, conseguiu aumentar as vendas para aquele mercado em 4,9%. A maior expansão das exportações brasileiras foi para a Ásia (aumento de 20%), especialmente para a Índia (120%), Cingapura (113,3%) e Coréia do Sul (25,2%). Já para a Argentina, um dos principais parceiros comerciais do País, as exportações brasileiras desabaram, com queda de 59,8%. Segundo o Ipea, se forem desconsideradas as exportações para a Argentina do ano passado e deste, as exportações brasileiras teriam computado aumento de 3,9%, ao invés de registrar a queda de 1,9% no período.A conta de serviços também está favorecendo as contas externas brasileiras. Nos oito primeiros meses de 2001, o País registrou déficit de US$ 5,5 bilhões na conta de serviços e, neste ano, esse déficit caiu para US$ 3,4 bilhões. As despesas líquidas com transportes caíram de US$ 2,1 bilhões para US$ 1,3 bilhão nos primeiros oito meses do ano, enquanto os gastos com viagens internacionais se reduziram pela metade (US$ 1,2 bilhão em 2001 e US$ 0,6 bilhão este ano). A melhoria nessas contas só não traz alívio ao Brasil devido à queda substancial dos financiamentos externos e ao fluxo de investimentos diretos. Os investidores estrangeiros estão investindo menos no Brasil e os brasileiros estão investindo mais no exterior. Pelos dados do Banco Central citados pelo Ipea, os investimentos estrangeiros no Brasil este ano somaram US$ 9,5 bilhões de janeiro a agosto, bem abaixo dos US$ 15,9 bilhões computados em igual período de 2001. Enquanto nos oito primeiros meses de 2001 o saldo líquido dos investimentos de brasileiros no exterior (aplicações no exterior e repatriamento de recursos) resultou num saldo positivo de US$ 2,1 bilhões, este ano está ocorrendo o inverso, com um saldo negativo de US$ 2,0 bilhões.

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