Para Lavagna, entrada da Venezuela seria negativa para Mercosul

O ex-ministro da Economia, Roberto Lavagna, declarou que a entrada da Venezuela no Mercosul como sócio pleno e o eventual afastamento do Uruguai causariam uma alteração na imagem e no equilíbrio de forças do bloco do Cone Sul. Segundo ele, a alteração ocorreria em dois fatores que são "cruciais", isto é, "economia de mercado e democracia". Em uma entrevista ao jornal dominical Perfil, o ex-ministro disse que a alteração seria "negativa".Perguntado sobre o que pensava do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, Lavagna exercitou sua tradicional ironia sutil: "existe uma expressão simpática do (presidente do Chile, Ricardo) Lagos, que diz ´populismo com talão de cheques´. Não é minha. É do presidente Lagos".Na semana passada, em Buenos Aires, representantes dos quatro países sócios do Mercosul mais os venezuelanos (que até dias atrás era um "membro pleno em processo de adesão"), assinaram o Protocolo de Adesão que determina que no prazo máximo de quatro anos a Venezuela se transformará em um membro pleno, adotando as normas internas do bloco e a Tarifa Externa Comum (TEC). Os analistas afirmam que esse desembarque venezuelano aumentará mais ainda a influência do presidente Chávez na região.Desta forma, o Mercosul, que desde sua criação havia sido um quarteto, com a chegada da Venezuela passará a ser um quinteto. No entanto, não se descarta a possibilidade de que o bloco encolha para um trio, já que, enquanto a Venezuela acelera sua entrada plena, o Uruguai analisa a negociação de um acordo de livre comércio com os Estados Unidos, fato que complicaria a permanência desse país dentro do Mercosul.Simultaneamente, o governo paraguaio - irritado com os obstáculos que os países "grandes", isto é, o Brasil e a Argentina, costumam colocar para os "pequenos" - também estuda a possibilidade de iniciar negociações similares com o governo do presidente George W. Bush.Tanto em Montevidéu como em Assunção, governo e empresários amargam o desprezo com que costumam ser tratados por Brasília e Buenos Aires, que tomam decisões sem consultá-los previamente.Lavagna destacou que o Mercosul "continua sendo o projeto estratégico mais importante. Mas, acho que a Argentina e o Brasil precisam entender a particular situação dos países menores".A irritação uruguaia com o Mercosul cresceu a partir de agosto passado, quando o presidente argentino, Néstor Kirchner, desferiu uma dura campanha - a "Guerra da Celulose" - contra a instalação de duas megafábricas de celulose no município uruguaio de Fray Bentos, à beira do rio Uruguai, que divide os dois países. Kirchner exigiu a suspensão das obras, alegando que as fábricas causariam graves danos ambientais e econômicos para a Argentina. O presidente uruguaio, Tabaré Vázquez, resistiu às pressões, alegando que as empresas contam com tecnologia de ponta e que não poluirão. Além disso, as fábricas, que investirão US$ 1,8 bilhão, são essenciais para a recuperação econômica uruguaia.Lavagna sustenta que a finlandesa Bótnia e a espanhola Ence, que constroem as fábricas, deveriam comprovar que não prejudicarão o ambiente. No entanto, o ex-ministro também indica o direito do Uruguai de implementar "um investimento que, comparado com o tamanho da Argentina, equivale a US$ 30 bilhões".Lavagna é encarado como um potencial candidato às eleições presidenciais do ano que vem. Uma pesquisa da consultora Carlos Fara divulgada neste domingo indicou que o ex-ministro, definido como um homem de "carisma cinzento" - mas com fama de honesto e ponderado - conseguiria ficar em segundo lugar nas eleições caso enfrentasse nas urnas o presidente Néstor Kirchner (o presidente teria 49,3% dos votos contra 16,6% do ex-ministro) ou a esposa deste, a senadora Cristina Kirchner (a primeira-dama teria 40,6%, enquanto o ex-ministro ficaria com 19,5%).Ao longo do último mês, Lavagna foi paparicado por diversos setores opositores a Kirchner, entre eles integrantes do círculo do ex-presidente Eduardo Duhalde (que colocou Lavagna no cargo de ministro e depois o deixou de "herança" para Kirchner), que constituem um setor do próprio partido de Kirchner, o Justicialista (Peronista), mas com o qual mantém divergências. Lavagna também foi lisonjeado por representantes da União Cívica Radical (UCR), que gostariam de ver o ex-ministro como candidato de seu partido.No entanto, na entrevista ao Perfil, Lavagna esquivou qualquer compromisso com uma eventual candidatura sua à presidência do país.

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