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Para líderes, recuperação começaria em 2010

Telegramas da diplomacia americana mostram que efeitos da crise foram minimizados

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2013 | 02h15

Cinco anos após a quebra do banco americano Lehman Brothers, evento que se tornou o "marco zero" da crise financeira global, vêm à tona telegramas produzidos pela diplomacia americana mostrando que os principais líderes mundiais subestimaram o tamanho do problema. A avaliação era que o prazo de recuperação da economia mundial seria relativamente curto.

O Lehman Brothers quebrou em 15 de setembro de 2008, provocando uma reação em cadeia que culminaria com a falência de outros bancos, queda de governos, fechamento de empresas e milhões de desempregados pelo mundo. Os telegramas americanos, coletados pelo grupo WikiLeaks e obtidos pelo Estado, mostram que, nas semanas seguintes à quebra do Lehman, uma intensa atividade diplomática foi lançada pelo mundo, com uma proliferação de reuniões e propostas.

Uma demonstração da falta de compreensão da dimensão da crise seria dada pelo presidente do Banco Central do Canadá, Mark Carney - hoje à frente do BC da Inglaterra. Num telegrama de 28 de novembro de 2008, o banqueiro era apontado pelos diplomatas americanos como otimista em relação à crise. Ele teria, num encontro com americanos, expressado "sua tremenda fé numa recuperação" americana. "Os EUA terão um período de recuperação relativamente curto, ainda que doloroso", estimou.

Num outro telegrama, de 20 de outubro de 2008, a diplomacia americana fazia uma avaliação da situação na Europa. A previsão era de que, de fato, o Velho Continente sofreria uma recessão em 2009. Mas que, em 2010, "uma recuperação econômica já ocorreria". Naquele momento, líderes europeus ainda resistiam em admitir a seus eleitores que, em 2009, o bloco viveria uma recessão.

No dia 16 de outubro daquele ano, antes mesmo da reunião do G-20 ou do colapso de alguns governos, um dos principais conselheiros diplomáticos da França diria aos americanos que a decisão de governos de injetar dinheiro nos bancos "parecia estar funcionando". O que viria a se provar um diagnóstico equivocado.

Em outubro de 2008, a avaliação dos europeus em relação à crise que havia chegado era de que "o impacto na confiança de consumidores e de investidores era o real problema", e não os empréstimos e fluxos de dinheiro para o setor privado. "Até agora, a crise teve apenas um efeito marginal nos empréstimos ao setor privado", indicou o telegrama, fazendo um raio X sobre a Europa.

Exatamente um mês após a quebra do Lehman Brothers, um outro telegrama enviado pela embaixada americana em Berlim também mostrava que posições iniciais adotadas por governos acabaram atrasando uma resposta mais eficiente para a crise. O relato se referia a um encontro entre o subsecretário do Tesouro americano, Robert Kimmitt, e Thomas de Maizière, chefe da chancelaria da Alemanha. Maizière criticou os resgates de bancos por Reino Unido e Irlanda e insistiu que a Alemanha não tinha "a intenção de pagar por um resgate europeu".

Segundo ele, a Alemanha "não colocaria um saco de dinheiro no meio da Europa para quem quisesse". Cinco anos depois, a Alemanha já teve de destinar bilhões para garantir a sobrevivência do euro e de seu projeto político para a Europa.

Emergentes. Nos diversos documentos, fica claro que tanto europeus como americanos estavam preocupados com a posição que os países emergentes tomariam diante da crise. A estratégia foi a de buscar uma forma de convencer os emergentes a apoiar as propostas que surgiam nos países ricos, cedendo em alguns pontos justamente para não criar um racha na comunidade internacional.

Em um dos telegramas emitidos depois da primeira reunião de cúpula do G-20, no dia 19 de novembro de 2008, a diplomacia americana relata como os europeus saíram aliviados diante do fato de os governos emergentes terem "comprado" o receituário proposto durante o evento. Dias depois, o governo da França insistia aos americanos que a estratégia para lidar com a crise teria de contemplar um plano para envolver os emergentes e não gerar "uma divisão Norte-Sul" no mundo.

O temor tinha fundamentos. Pelos documentos, fica evidente a preocupação dos americanos diante da insistência do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em apontar os países ricos como culpados pela crise. Num documento de 31 de outubro de 2008, os americanos diziam como Lula "colocava a culpa" em "atores dentro dos EUA".

A constatação da diplomacia americana foi de que Brasília também usava a crise para obter uma maior voz no cenário internacional. "O Brasil dificilmente vai apoiar maiores poderes ao FMI sem reformas e sem um maior papel do próprio Brasil dentro do FMI", alertava telegrama de 31 de outubro.

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