Para Lula, alguns empresários têm "cara de sonegador"

Em plena campanha para a Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deu uma estocada nos empresários, e disse que quem paga imposto no Brasil são os trabalhadores. "Eu faço muita reunião com empresários. Às vezes, olho para a cara das pessoas em algumas dessas reuniões e penso assim: têm cara de sonegadores", afirmou. As declarações de Lula foram feitas durante seminário organizado pelo Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Unafisco), no 2.º Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. Lula chamou o Brasil de "país sui-generis". "Todo mundo se queixa que paga muito imposto, mas tem muita gente que sonega", comentou. "Na hora de pagar é um carrinho, uma casinha, um terreninho; mas na hora de vender é um carrão, uma casona, um terrenão." O provável candidato do PT também comparou a sonegação ao jogo do bicho. Seu argumento: todos sabem que existe, mas fingem desconhecer. "Eu fiz um plano de saúde bom e sabem por quê?", perguntou para a platéia. Ele mesmo respondeu: "Porque foi a forma que encontrei de pagar menos imposto e cuidar da saúde." Lula lançou até mesmo um desafio para os auditores. "Como pagador de tributos e pela minha função política, duvido que alguém apresente declaração de renda com mais presteza do que eu", disse. "Muitos se espantam com o que eu pago de imposto", contou, sem mencionar o valor. Antes, já dissera ter em casa um cartaz de 1978, que prega: "90% dos profissionais liberais brasileiros não pagam imposto". "Sempre que vamos ao dentista ou ao médico, qual é a pergunta?", indagou Lula. A platéia respondeu: "Com ou sem recibo?". O candidato retrucou: "E qual é a resposta?" "Sem recibo", informaram os presentes. Saudado com os indefectíveis refrãos "Olê-Olá, Lula, Lula" e com "Brasil urgente/Lula presidente", o petista pregou maior engajamento do movimento sindical na defesa da reforma tributária. "Imposto de renda não é coisa de empresários e de economistas: tem de ser coisa de trabalhadores", argumentou. Ele saiu do seminário carregando um relório da Unafisco, segundo o qual o País perde por ano R$ 3,5 bilhões com isenções concedidas pelo governo federal para setores industriais, como tabaco, bebidas e armamentos. ParaleloEm Porto Alegre, Lula montou um fórum dentro do fórum. Para divulgar suas propostas de governo, organizou vários debates até 4 de fevereiro, no 2.º Fórum Social Mundial. Os temas vão de segurança pública a moradia, passando por Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e combate à fome. Num dia típico de candidato, o presidenciável teve vários compromissos antes de participar da palestra promovida pela Unafisco. De manhã, aproximou-se do senador Eduardo Suplicy (SP), que vai disputar com ele uma prévia para a indicação do concorrente do PT à Presidência. "O Eduardo, quando quer alguma coisa, é tinhoso", disse, provocando risos. "Ele tem uma virtude extraordinária: a obsessão de fazer aquilo que acredita e, para tanto, se dispõe a discutir com Deus e o diabo." Os elogios tiveram um tom de provocação, mas o senador nem ligou. Foi a primeira vez que os dois se reencontraram desde o ano passado. Suplicy sabe que os comentários de Lula têm vários motivos. Os principais: sua insistência em enfrentá-lo numa prévia, marcada agora para 17 de março, e em vários debates no rádio e na televisão. Diante de 300 pessoas que se aglomeravam para o lançamento do livro "Em Direção a uma Renda de Cidadania - A Saída é pela Porta", assinado pelo senador, Lula continuou sua diplomática campanha. Chegou até a chamar Suplicy de "patrimônio da política nacional e da humanidade". Mais uma vez, ele não quis ser fotografo ao lado do ativista francês José Bové.

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