Para manter regras do FMI, real precisa ter 15,8% de valorização

Depois de anunciar um esforço fiscal adicional para este ano, o governo agora precisa que o real se valorize pelo menos em 15,8% até a próxima segunda-feira para conseguir manter a dívida pública no patamar acertado com o Fundo Monetário Internacional (FMI). No último acordo com o Fundo ficou definido que a meta da dívida líquida do setor público para setembro é de R$ 810 bilhões. Apesar de não prejudicar a liberação dos recursos do FMI, o descumprimento dessa meta é uma sinalização ruim para o mercado e vem num momento em que investidores voltam a questionar a capacidade de o governo manter a dívida pública numa trajetória sustentável."Com o câmbio atual, a meta de setembro não será cumprida. Para isso ocorrer, é preciso que a taxa volte para algo próximo a R$ 3,18", reconhece Altamir Lopes, chefe do Departamento Econômico do Banco Central. Entretanto, ele afirma que a elevação da dívida é plenamente justificável e não afeta a credibilidade do governo para mantê-la numa trajetória sustentável. Segundo dados do Banco Central, o endividamento da União Estados, municípios e estatais somava R$ 784,1 bilhões, o equivalente a 58,3% do Produto Interno Bruto (PIB), no final de agosto. Isso representa uma queda de R$ 35,3 bilhões em relação ao saldo de R$ 819,4 bilhões verificados no final de julho, que atingia 61,9% do PIB. Mas, como quase metade desse endividamento está vinculado ao câmbio, o sobe e desce da cotação da moeda estrangeira mantém a dívida com um comportamento de gangorra.Se for considerada a cotação do dólar hoje, de R$ 3,78, o real já acumula uma desvalorização de 25,2% em setembro, o que provoca uma alta de R$ 101,8 bilhões na dívida. Com isso, o saldo final salta para R$ 886 bilhões, bem acima dos R$ 810 bilhões previstos há menos de um mês quando os técnicos do governo fixaram os termos do acordo com o Fundo.Comparando com um PIB de R$ 1,355 trilhão projetado para o período de 12 meses terminado em setembro, esse endividamento passa dos 65% de tudo o que é produzido no País. Se confirmado, será o valor mais alto da história.Esse valor pode ser revertido, pelo menos parcialmente, se houver uma valorização do real nos próximos dias. A cotação da próxima segunda-feira, o último dia útil do mês, será determinante para definição do estoque em setembro. Além disso, a política de resgatar títulos que estão vencendo deve ajudar a reduzir um pouco esse valor. "Esse é um movimento do câmbio, não está ao alcance do controle do BC. A situação seria diferente se a dívida tivesse subindo por causa de descontrole fiscal, o que não é o caso", afirma o economista Júlio Callegari. No entanto, ele reconhece que o descumprimento da meta em setembro pode acabar gerando um estresse no mercado se for levado em conta que muitos investidores passam a apostar que a tendência é de mais desvalorizações daqui para frente, tornando a dívida insustentável."Quando o investidor analisa esse estoque e leva em conta que ainda tem o processo eleitoral e outros fatores que podem afetar a trajetória da dívida, a desvalorização verificada passa a ser o começo de uma escalada para ele", avalia Callegari. O risco é que a onda de pessimismo acabe contaminando até mesmo os investidores que apostam numa queda e posterior estabilidade da dívida ao longo de 2003. Isso pode gerar um pânico no mercado, fazendo com que a situação fique insustentável.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.