André Dusek|Estadão
André Dusek|Estadão

Para ministro do STF, governo subestimou greve dos caminhoneiros

Na avaliação de Marco Aurélio Mello, País não poderia 'ter chegado a esse ponto'

Entrevista com

Marco Aurélio Mello, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)

Amanda Pupo, O Estado de S.Paulo

28 Maio 2018 | 15h51

Em entrevista ao Broadcast Político, o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), avalia que o governo federal subestimou a situação dos caminhoneiros, o que resultou em uma reação atrasada sobre a crise. "O governo é o órgão mais bem informado que nós temos. Aí, eu penso que subestimaram e foram surpreendidos com essa reação que paralisou o País", disse o ministro.

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Em pronunciamento no domingo, 27, o presidente Michel Temer anunciou que o preço do óleo diesel terá uma redução de R$ 0,46 por um período de 60 dias. Para Marco Aurélio, com as providências tomadas, o momento é de a categoria confiar na efetivação das medidas anunciadas pelo Planalto, e finalizar a greve. "Nós temos a forma (a reação do governo). O que nós precisamos cuidar, e isso cumpre ao governo, é do conteúdo. Sentar à mesa e buscar o entendimento", comentou.

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Questionado sobre a manifestação do ministro Celso de Mello, decano da Corte, que relembrou que Código de Trânsito Brasileiro pune como infração gravíssima o ato de alguém usar qualquer veículo para deliberadamente interromper a circulação rodoviária, Marco Aurélio destacou que o aspecto fica em segundo plano quando a situação "chega ao extremo". "Não adianta simplesmente dizer que eles não podem fazer. O que se precisa é imprimir providências que os levem a recuar", afirmou. 

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Confira os principais tópicos da conversa na entrevista abaixo.

 

Broadcast: A greve dos caminhoneiros entra na segunda semana, com serviços parados e um grande caos de abastecimento instalado. Como o senhor avalia a situação? 

Marco Aurélio Mello: É uma frase crítica, nós realmente não podíamos ter chegado a esse ponto. Não sei (se governo) subestimou as informações alcançadas, mas é uma situação realmente muito ruim, porque repercute na vida de todos. É um contexto que você precisa ter presente, e tomar as providências antes que o pior aconteça. E o pior veio a acontecer, já que os caminhoneiros só viram esse caminho para tentar ter preservados os meios de trabalho.

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Broadcast: Então o senhor considera que a situação dos preços deveria ter sido tratada antes? 

Marco Aurélio: Sem dúvida. E o governo é o órgão mais bem informado que temos. Aí eu penso que subestimaram e foram surpreendidos com essa reação que paralisou o País.

Broadcast: Como o senhor avalia a paralisação que está sendo feita? 

Marco Aurélio: É um ato de força, sem a menor dúvida. E só se chega a ele quando não se tem outra solução. Os caminhoneiros fizeram o que fizeram porque estão visando a própria sobrevivência, incitando essa paralisação total.

 

Broadcast: Mesmo após a manifestação do governo federal, atendendo a grande parte das reivindicações, a greve dá sinais que irá continuar. A questão pode acabar na Justiça? 

Marco Aurélio: Não sei. A questão é que aí (na reação do governo) nós temos a forma. O que nós precisamos cuidar, e isso cumpre ao governo, é do conteúdo. Sentar à mesa e buscar o entendimento. Arrumar a situação criada pelo aumento de preços dos combustíveis, buscar uma saída. Claro que o presidente Pedro Parente, da Petrobras, tinha que buscar o saneamento da Petrobras. Temos que buscar o meio.

Broadcast: Para o senhor, por que a greve ainda persiste, mesmo após as medidas anunciadas pelo governo?

Marco Aurélio: Eu acho que houve uma sinalização quanto a um entendimento. Ante a sinalização, não há porque continuar com um ato de força como é a greve. Eu penso que o segmento agora tem que aguardar pela concretização do que foi alinhavado. Eu acho que o que eles objetivaram já foi alcançado. Então é um momento de voltarem à atividade normal e confiar em que haverá concretude quanto ao que foi negociado. O segmento deve satisfação à sociedade. Não dá para persistir e continuar o desabastecimento. O momento agora é de acreditar no que foi sinalizado pelo governo.

Broadcast: Em entrevista ao Broadcast, o ministro Celso de Mello comentou que o País não pode ser 'refém de qualquer categoria profissional'. O senhor vê da mesma forma?

Marco Aurélio: Quanto à manifestação em rodovia, nós assentamos que deveria haver comunicação prévia. Mas quando se chega a esse extremo, evidentemente esses aspectos ficam em segundo plano. Não adianta simplesmente dizer que eles não podem fazer. O que se precisa é imprimir providências que os levem a recuar.

 

Broadcast: Consegue visualizar a situação se acalmando ainda essa semana?

Marco Aurélio: A tendência é pouco a pouco a normalização. Agora vamos ver o que se faz para realmente evoluir. Essa semana é truncada porque temos o feriado, mas evidentemente a vida precisa continuar, e sem sobressaltos. Eu acho que o momento é para diálogo, para se chegar a um denominador comum.

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