Para muitas mulheres, segurança financeira na aposentadoria continua um sonho distante

Para muitas mulheres, segurança financeira na aposentadoria continua um sonho distante

Boa parte desse problema pode ser atribuída a uma diferença persistente de gênero na renda da aposentadoria

Elizabeth Olson, The New York Times

14 Junho 2016 | 15h21

Adna Bert Baldwin recebeu de sua mãe um conselho: uma mulher deve ser independente e ter dinheiro para se sustentar. Sau mãe foi professora há um século de uma escola no Kentucky que tinha apenas uma sala de aula.

Adna, de 81 anos, levou o conselho a sério. Ela se casou jovem, com seu namorado do colegial, mas seguiu os passos da mãe, dando aula para alunos do primário nos arredores de Cincinnati durante 27 anos. O benefício que fez por merecer quando se aposentou duas décadas atrás a deixou mais segura do que sua mãe, Adna Burns, que trabalhou em uma época em que a ideia de aposentadoria paga estava apenas surgindo para o caso dos professores.

Para Adna, o benefício recebido lhe permite uma vida confortável de classe média. Não é uma quantia imensa, cerca de US$ 2.100 mensais, mas mais do que se ela se visse forçada a depender da pensão do falecido marido, engenheiro ferroviário.

"Desde o primeiro dia, eu a considerei como uma coisa boa. Assim, posso ficar na minha casa, que está paga, e estou livre de dívidas", diz ela.

Adna integra um grupo relativamente pequeno de mulheres idosas que desfruta de um bom benefício. Muitas de sua geração não tiveram direito à pensão porque se afastaram do trabalho ou trabalhavam meio período, para criar os filhos ou cuidar dos pais idosos. Em função disso, a maioria com mais de 70 anos depende da Previdência Social para garantir a maior parte de sua renda, com renda mensal girando em torno dos US$ 1.300.

Quem, como Adna, trabalhou continuamente por longos períodos e desfrutou dos benefícios de atuar em campos como saúde, educação e administração pública - onde aposentadorias com benefícios pré-definidos se tornaram mais prevalentes - se encontra em melhor situação.

Poucas pessoas desses grupos se tornam ricas, mas, igualmente, poucas caem na pobreza. E, na aposentadoria, os trabalhadores dessas áreas estão mais seguros do que os colegas que atuaram em outros setores, segundo relatório divulgado em março pelo National Institute on Retirement Security. Somente 4% das mulheres aposentadas com mais de 65 anos que trabalharam em educação, por exemplo, são pobres, de acordo com o relatório do instituto, "Enganadas na aposentadoria, desafios contínuos para o futuro financeiro feminino".

As mulheres que se aposentaram como administradoras públicas têm um índice de pobreza um pouco maior, cinco por cento, enquanto o das funcionárias da saúde é de sete por cento. Em contrapartida, o índice de pobreza de funcionários do comércio é de nove por cento.

Um fator importante nesses campos, nos quais as mulheres representam uma parcela importante da mão de obra, está ligado ao fato de que eles ainda oferecem um plano de aposentadoria com benefício definido. Por exemplo, a maioria das professoras de escolas públicas tem aposentadoria. Enfermeiros ficam atrás de professores porque poucos hospitais e sistemas de saúde oferecem aposentadorias tradicionais, mas mesmo assim estão mais bem protegidos do que quem trabalha na maioria das outras áreas.

Para grande parte das mulheres que chega à idade de se aposentar hoje em dia, no entanto, a situação, em geral, ainda é pior do que a dos colegas homens.

"Elas têm 80% mais de chance de serem pobres aos 65 anos, enquanto as mulheres com idades entre 75 e 79 anos têm o triplo de chance dos homens de viver na pobreza", afirma Diane Oakley, diretora executiva do instituto que fez a pesquisa.

Boa parte desse problema pode ser atribuída a uma diferença persistente de gênero na renda da aposentadoria. Em 2014, os homens receberam em média um benefício de US$ 17.856 anuais, segundo o estudo; as mulheres ficaram com cerca de um terço a menos, na casa dos US$ 12 mil. Uma disparidade semelhante se encontra nos planos de aposentadoria patrocinados pelo empregador, conhecidos nos Estados Unidos pelo código 401(k), nos quais as mulheres acumularam, em média, dois terços do economizado pelos homens.

Uma grande parte da diferença entre mulheres, que tinham US$ 25 mil investidos, em média, e dos homens, que possuíam US$ 36.875, provinha, é claro, da diferença continua nos salários.

"A diferença salarial entre homens e mulheres diminuiu", afirma Lori A. Trawinski, do Instituto de Política Pública AARP, que publicou um estudo no ano passado sobre a situação feminina. "Todavia, por baixo dessa melhoria existe um cenário muito mais complicado do papel que o emprego desempenhou nas vidas das mulheres ao longo das últimas décadas."

Segundo Lori, essa discriminação e a segregação de gênero dentro dos setores econômicos significavam salários menores e, como resultado, menor economia para a aposentadoria. Na idade de se aposentar, as mulheres apresentam uma probabilidade maior de estar mais vulneráreis financeiramente já que muitas delas são solteiras, divorciadas ou viúvas, e várias se sentem inseguras em relação às suas finanças na aposentadoria. De acordo com pesquisa de 2015, da consultoria de marketing GfK, dois terços das mulheres se sentiam inseguras ou pessimistas em relação às suas finanças durante a aposentadoria, contra 40 por cento dos homens que se sentiam da mesma maneira.

A maioria das enfermeiras tem de se virar sozinha quando se trata de economizar para a aposentadoria. Menos de 500 mil enfermeiros trabalham sob um acordo de dissídio coletivo, explica Pamela F. Cipriano, presidente da Associação Americana de Enfermeiros, que representa 3,4 milhões de profissionais.

Geralmente, enfermeiros não estão sujeitos a idades obrigatórias para aposentadoria, então - pelo menos oficialmente - eles podem ficar mais tempo no mercado de trabalho. Mas é um emprego difícil e exigente que desgasta até a pessoa mais saudável.

"A maioria das descrições de emprego cita que um enfermeiro deve ser capaz de transportar cerca de dez quilos e caminhar determinada quantidade de quilômetros por dia", afirma Pamela.

A entidade que representa os enfermeiros se uniu com o Edelman Financial Services, em Fairfax, Virgínia, para oferecer sessões gratuitas de planejamento de aposentadoria para os profissionais. "As mulheres viram que o mundo era muito frágil depois de 2001", diz Ric Edelman, que fundou a empresa de atuação nacional. "Não foi somente por causa dos ataques terroristas, mas também por causa do estouro da bolha tecnológica e pelas perdas financeiras serem maiores do que nunca."

"As mulheres começaram a ver que precisavam agir para se proteger."

Dada a evaporação das aposentadorias tradicionais e da estagnação dos salários, a próxima geração de mulheres a atingir a idade de se aposentar deve gastar mais tempo trabalhando. Um número crescente daquelas com mais de 55 anos trabalha meio período ou integralmente, e o Instituto de Estatísticas Trabalhistas projeta que até o final desta década, 20 por cento das mulheres com mais de 65 anos estarão trabalhando.

"Algumas querem trabalhar, mas muitas precisam trabalhar para aumentar sua segurança na aposentadoria", declara Lori Trawinski, da AARP.

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