GABRIELA BILÓ / ESTADAO
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As elites empresariais acham que enxergam longe, mas não conseguem tirar os olhos do seu próprio umbigo

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2016 | 21h00

O ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, hoje coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getúlio Vargas, advertiu nesta quarta-feira as lideranças do setor que têm de mudar seu foco.

“Temos de discutir um ajuste fiscal para o Brasil, e não para o agro; um crédito para o empresariado; melhoria na logística para toda atividade produtiva; reformas tributária e trabalhista completas. Primeiro, o Brasil.”

Essa é postura bem diferente da quem vem sendo exercida pelos dirigentes da indústria e do comércio. Eles se preocupam mais em montar lobbies em Brasília para buscar benefícios para seu setor do que para garantir políticas racionais que fortaleçam os fundamentos da economia e, a partir daí, todo o setor produtivo.

Ao longo de todo o período Dilma, os dirigentes das entidades empresariais defenderam ou, então, simplesmente, aplaudiram políticas seletivas de desoneração e isenções tributárias, concessões de subsídios e de reservas de mercado, sem ao menos levar em conta o desequilíbrio entre as condições concorrenciais de empresas e setores que esses favores passaram a produzir.

Depois que vieram o rombo fiscal e as distorções, deram-se conta de que estava tudo errado, mas não têm corrigido sua postura corporativista. Querem derrubada dos juros e desvalorização cambial não pelo fortalecimento da economia, mas porque pensam que isso seria bom para eles. E, na busca frenética por benefícios, não se preocupam com a arrumação de toda a economia.

A Associação da Indústria de Máquinas e Equipamentos, a Abimaq, cai no erro de construir arapucas para o País e para seu próprio setor. Seu último pacote de reivindicações reconhece, por exemplo, que 65% das empresas do seu setor estão inadimplentes com a Receita Federal. E usa esse fato consumado para fazer uma espécie de chantagem ao governo. Quer 20 anos, com 2 de carência, para resgatar essas dívidas, que ainda gozariam de benefícios extras na correção monetária desses valores. Para o pagamento de novas obrigações com impostos, a Abimaq acha que não há nada demais em arrancar do governo prazo de pagamento de 90 dias. Não passa pela cabeça dos seus líderes o estrago a que estariam sujeitas as contas públicas se esses benefícios fossem estendidos aos demais.

Os dirigentes do setor produtivo – e não só os da Abimaq – frequentemente se comportam como as lideranças do PT quando falam de juros e câmbio. Querem porque querem a derrubada de juros na marra e câmbio invariavelmente desvalorizado, sem levar em conta como o resto da política econômica se arrumaria.

Os diretores da Abimaq, por exemplo, defendem a criação de uma linha de financiamento para pequenas e médias empresas bancada pelos depósitos compulsórios dos bancos. Não se perguntam para que servem os depósitos compulsórios nem o que aconteceria se a eles fosse dada a finalidade que imaginam. Além disso, pleiteiam um dólar a R$ 4, a ser plantado por um regime de bandas cambiais. Também não se perguntam de onde viriam os recursos que sustentariam compras de dólares que garantissem essas cotações.

As elites empresariais acham que enxergam longe, mas não conseguem tirar os olhos do seu próprio umbigo. Falta-lhes o sentido de Brasil.

CONFIRA:

Aí está a evolução do IPCA-15, medidor de inflação do período de 30 dias iniciado a cada dia 15.

Continua alta

A inflação de agosto mostra alguma desaceleração, mas não o suficiente para garantir a convergência para a meta de 4,5% em 2017. A inflação medida em 12 meses continua muito alta; está a 8,95%. E está bem mais espalhada. O índice de difusão aumentou de 57,8% para 63,3%. São números que reforçam a percepção de que os juros básicos (Selic) não cairão tão cedo. A próxima reunião do Copom é quarta-feira, dia 31.

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