Para onde o Chipre for, irá a União Europeia

De repente, a minúscula ilha do Chipre chegou às manchetes. Como seria possível que um país tão pequeno, com uma economia aproximadamente do tamanho do Estado do Maranhão, criasse um problema tão grave? Ocorre que a crise do Chipre exemplifica tudo o que há de errado na União Europeia.

Barry Eichengreen, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2013 | 02h06

A questão fundamental é que, em 2008, permitiu-se o ingresso do Chipre na zona do euro. A ilha já era um centro de lavagem de dinheiro do mundo inteiro. Depois que outros países europeus foram abalados por uma série de problemas em razão do gigantismo dos bancos, a UE fechava os olhos quando Chipre oferecia elevadas taxas de juros a fim de atrair mais empréstimos de curtíssimo prazo. E olhava para o outro lado quando os bancos se enchiam de títulos da dívida grega de alto rendimento.

E, no entanto, no verão de 2011, os grandes bancos cipriotas passaram pelos testes de estresse bancário da UE com notas altas, o que hoje parece incrível, olhando retrospectivamente. O governo já havia perdido o acesso aos mercados, e era evidente que precisaria de uma operação de resgate. Era evidente que a Grécia teria de reestruturar sua dívida e que isso abriria um buraco nos balanços patrimoniais dos bancos. Em julho de 2011, a maior usina elétrica da ilha explodiu, porque o governo, em sua imensa sabedoria, escolhera o local para armazenar munições.

Por todas essas razões, o diagnóstico já era conhecido. Mas não foi entabulada nenhuma negociação séria durante os 18 meses seguintes. As autoridades cipriotas não quiseram admitir sua negligência, e a Comissão Europeia, por sua vez, não estava disposta a negociar com um governo liderado pelos comunistas. Quando finalmente as negociações começaram, no mês passado, depois da eleição de um novo governo conservador, realizaram-se sob a profunda pressão do tempo.

Mas isso não justifica o pacote desastrado que elas produziram. As autoridades cipriotas quiseram preservar um modelo de negócio fracassado - agarrar-se aos volumosos depósitos russos taxando os pequenos depositantes. Elas são fundamentalmente responsáveis pelo pânico que se seguiu.

Entretanto, nada obrigou a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional - a chamada troica - a concordar com um plano que ameaçava a inviolabilidade do seguro dos depósitos. O FMI passou anos estudando o melhor modelo de seguro dos depósitos. Neste momento, a Comissão Europeia e o BCE estão analisando o modelo de um seguro dos depósitos comuns como parte de uma eventual união dos bancos. Agora, há dúvidas quanto à segurança dos pequenos depósitos não apenas no Chipre, mas também na Itália, na Espanha e em toda a União Europeia.

O Eurogroupo e seu novo presidente, o ministro de Finanças holandês, Jeroen Dijsselbolem, merecem um especial destaque. O Eurogroupo prevê a rotatividade de sua presidência. Infelizmente, desta vez, ela coube a um presidente inexperiente no pior momento possível.

Afirmando de início, e depois negando, que a reestruturação forçada com o confisco do dinheiro dos depositantes cipriotas era o esquema que a UE adotaria para tratar das crises seguintes, Dijsselbloem criou uma intensa ansiedade em relação ao futuro, e aumentou a possibilidade de ocorrerem novas corridas aos bancos e de crises.

O pânico que se instaurou agora ameaça a própria sobrevivência da moeda única. Para deter a fuga dos correntistas, Chipre foi obrigado a impor controles de capitais. Como todo brasileiro sabe, uma vez que se imponham esses controles, é muito difícil eliminá-los. A ideia de que seja possível eliminá-los depois de uma semana ou de um mês é fantasiosa. Esses controles fazem com que um depósito em euros em um banco cipriota valha menos do que um depósito em euro em outro lugar.

Isso quanto ao princípio da moeda única. E também quanto às "três liberdades" - liberdade de ir e vir, não apenas para bens e pessoas, mas também para os capitais - que o ingresso na UE supostamente deveria conceder.

O que deveria ter sido feito em vez disso? As autoridades da UE estavam certas ao reconhecer que emprestar enormes quantidades de dinheiro ao governo para que este salvasse os bancos não seria a solução, porque ameaçaria a soberania com dívidas insustentáveis. Mas erraram em insistir que o governo depreciasse imediatamente os depósitos bancários, inclusive de grandes depósitos acima de 100 mil porque fazer isso implicaria destruir numa penada o setor financeiro que constituía o setor mais importante da economia cipriota.

E empurraria Chipre numa depressão de proporções históricas.

Os líderes da UE deveriam ter reconhecido que eles próprios ajudaram Chipre a entrar nessa confusão. A UE fechou os olhos quando Chipre adotou o euro. E olhou para o outro lado quando seus bancos procuraram dinheiro russo. Inclusive deu a esses bancos sua aprovação.

Portanto, a UE deveria ter usado o seu fundo de ajuda, o Mecanismo Europeu de Estabilidade, para injetar recursos diretamente nos bancos, reparando seus balanços. Com o tempo, as dimensões dos bancos poderiam ser reduzidas. E as leis relativas aos depósitos estrangeiros, da Rússia ou de outro país, poderiam ter sido mais rigorosas. O problema seria solucionado sem que o país entrasse em bancarrota.

Essa abordagem evidentemente acarretaria em algum custo para outros países da UE, mas um custo pequeno, dado o tamanho do Chipre. E a divisão do ônus seria justa e equitativa, porque fora a própria UE que permitira que o problema crescesse. Mas isso pressupõe que os políticos europeus estejam dispostos a defender a operação com seus eleitores. É uma solução que imagina uma UE em que as decisões são tomadas pelo bom senso econômico e não pelas futuras eleições da Alemanha.

Evidentemente, a UE seria muito diferente da que temos, a ponto de se questionar se a UE que temos conseguirá sobreviver. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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