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Para onde vai o dólar

Se os fundamentos da economia estão bem, por que, afinal, houve tanta sangria de dólares e por que o real se desvalorizou tanto? Alguém aí consegue prever com um mínimo de segurança o que vai acontecer com a cotação do dólar nos próximos meses?De maio até final de novembro, o real se desvalorizou 29% em relação ao dólar e 14% em relação ao euro. Para início de conversa, não é fácil separar o que nesse movimento são mazelas do real e o que são das outras moedas. A moeda do país mais encrencado, em princípio, teria de derreter. E, no entanto, está acontecendo o contrário; o dólar cavalga em relação a quase tudo o que antes era considerado mais sólido. Essa anomalia tem lá suas explicações, que ficarão para ser revisitadas em outra oportunidade.A desvalorização do real em relação ao euro serve mais de parâmetro para avaliar o que está acontecendo do que a comparação com o dólar. E, para início de conversa, é descabido atribuir a perda relativa de força do real à deterioração dos fundamentos da economia brasileira, que continuam mais ou menos os mesmos de quando a tendência do câmbio era a da valorização do real.São três as principais razões da desvalorização da moeda brasileira. A primeira é a perda de receitas com exportações que acompanha o tombo das cotações das commodities. Na condição de importante fornecedor externo, o Brasil foi castigado. A segunda razão foi o efeito "raspa tacho" provocado pelas matrizes das empresas estrangeiras no País. Faltou caixa lá fora e as filiais, num excelente momento, foram convocadas a socorrer as empresas mãe. Assim, a alta do dólar acabou fortemente influenciada por essas saídas de moeda estrangeira, que nada têm a ver com as fugas de dólares do passado - essas, sim, provocadas pela deterioração das condições da economia brasileira.E o terceiro fator de desvalorização do real foi a ação dos fundos de hedge, que vêm sofrendo grandes saques e precisam fazer dinheiro com os ativos mais líquidos. Como não foi possível vender tantos ativos internacionais que passaram a ser classificados como "lixo tóxico", viram-se ações e ativos brasileiros, bastante valorizados até então, serem liquidados na bacia das almas.Muita coisa está para ser entendida, mas, independentemente das explicações que possam aparecer, a pergunta mais importante é saber para onde vai agora o dólar no câmbio nacional.Os canais de crédito no exterior continuam entupidos. Banco não confia em banco, portanto não empresta para banco. Mas põe suas sobras no banco central, que é obrigado a repassar o dinheiro para aqueles com problemas de caixa. E, se banco não empresta para banco, o cliente, grande ou pequeno, continua sob estresse. Esse quadro mantém a pressão sobre o câmbio no País.Para saber até onde vai o câmbio nos próximos meses, não basta avaliar corretamente de quanto será o rombo (déficit) em conta corrente (contas externas).Este pode ser de 1% do PIB, de 2% ou maior do que isso. O mais importante consiste em saber quanto desse rombo o resto do mundo estará disposto a cobrir.Isso só ficará mais claro nos próximos meses, provavelmente depois de 20 de janeiro, quando o país mais importante do planeta ficará sob novo comando.

Celso Ming, O Estadao de S.Paulo

29 de novembro de 2008 | 00h00

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