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Para onde vai o Reino Unido?

A decisão de deixar a União Europeia abriu um movimento rumo ao desconhecido

José Roberto Mendonça de Barros*, O Estado de S. Paulo

01 de maio de 2021 | 23h50

Ao final da Cúpula do Clima, Joe Biden disse que “estamos em uma época semelhante à Revolução Industrial e temos uma oportunidade para a formação de uma nova economia global com foco na preservação ambiental e adoção de energias renováveis”.

Mesmo tipo de percepção aparece nas manifestações das lideranças europeias e asiáticas. 

Nesta nova fase, iremos assistir à volta das relações internacionais mais civilizadas. Deve ficar claro que as cadeias globais de produção poderão sofrer certos ajustes, mas não serão revertidas, como tanto quis o ex-presidente Trump. 

Avanços na digitalização e na descarbonização serão fundamentais nas estratégias, bem como a reafirmação da centralidade da manufatura, das novas energias e da construção como puxadores de transformação e crescimento econômico. 

É certo também que as áreas de educação, pesquisa e saúde saem da crise ainda mais relevantes e desafiantes do que já eram. 

Finalmente, o papel do Estado como agente indutor dos grandes movimentos está sendo reafirmado, especialmente porque a pandemia evidenciou um insustentável aumento das desigualdades econômica e social. 

O pós-pandemia abre uma nova era para os países não negacionistas e que tenham conseguido avançar no combate à disseminação do vírus. 

Entretanto, as escolhas do passado poderão tornar esta nova fase mais ou menos árdua. Por exemplo, os países que mais deram apoio ao desenvolvimento da energia eólica, hoje totalmente competitiva, já têm um pedaço do futuro. Ao inverso, países fortemente especializados em energia antiga, como carvão e petróleo, terão uma árdua tarefa adiante, como é o caso da Rússia. 

Um caso único é o desafio que enfrenta o Reino Unido: a decisão tomada em 2016 de deixar a União Europeia acabou sendo materializada no início do corrente ano, abrindo um movimento rumo ao desconhecido. O país cresceu muito pouco desde 2010, com uma desaceleração mais intensa desde a discussão do Brexit. Isso não parece ter sido casual. 

Duas coisas positivas acabaram ocorrendo desde o início do ano. De um lado, a crise de abastecimento esperada por muitos para o imediato Brexit, em janeiro, não ocorreu. Com muito esforço, as mercadorias foram despachadas de forma satisfatória, de sorte que o comércio não ficou desabastecido.

Depois de flertar perigosamente com a imunidade de rebanho, Boris Johnson foi bem no lockdown e na vacinação em massa, colocando a perspectiva da volta de uma certa normalidade a partir do início do verão.  Entretanto, mais rapidamente do que se poderia imaginar, os desafios de longo prazo começaram a emergir. 

Graves fissuras políticas despontaram no Reino Unido. Durante as discussões, os separatistas da Escócia acabaram muito fortalecidos e, dependendo das próximas eleições, poderão tentar um novo plebiscito, buscando sair do Reino Unido e se juntar à Europa.

Ao mesmo tempo, apareceu uma enorme tensão na Irlanda do Norte, onde os unionistas (os que são pró-Reino Unido) ameaçam se revoltar contra a solução de ter uma fronteira no mar que a divide da Inglaterra, ao mesmo tempo em que cresce a hipótese de uma fusão entre as duas Irlandas. 

Após o sucesso inicial acima mencionado, as dificuldades do comércio com o continente, conforme o esperado, estão se revelando enormes, pois dependem da negociação de uma miríade de acordos específicos em inúmeros setores. Não será fácil manter o mesmo volume de exportações inglesas para o continente europeu e alguns mercados serão perdidos. 

Finalmente, Londres está sendo ameaçada na sua posição de centro financeiro europeu pela fuga de negócios para Amsterdã e outros mercados dentro do continente. Pergunta-se: qual será o tamanho dessa perda? Será possível trazer negociações da Ásia? 

Enfrentar todas essas mudanças, vencer a tendência à estagnação e montar uma estratégia de longo prazo serão desafios formidáveis. O Partido Conservador e Boris Johnson não parecem ter estatura para isso.

Segundo Bruno Licht, ouve-se em Londres que a UK começa o Brexit como “Great Britain” e corre o risco de terminar como “Small England”. 

*ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS

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