Para onde vamos?

Até os primeiros anos da década de 1990, o setor do ensino superior no Brasil gozava de alta rentabilidade e baixa competitividade, devido. principalmente, ao protecionismo e a fortes barreiras de entrada de ordem sociopolíticas e legais, que privilegiavam as instituições de ensino superior já estabelecidas. A situação se refletia em um ambiente bastante favorável a essas organizações em termos de demanda, garantindo uma relação candidato-vaga bastante positiva.

Marcelo Saraceni, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2014 | 03h12

Os pesados investimentos públicos no ensino fundamental e médio associados à falta de ações efetivas no âmbito político-governamental para agregar novos investimentos às universidades públicas, além de uma postura mais liberal do Ministério da Educação, contribuíram para criar um ambiente mais atrativo direcionando significativos investimentos para o ensino superior privado no Brasil.

Como consequência, teve inicio grande expansão no setor, a partir de 1995, com a implementação de normas e ações destinadas a motivar a abertura de novos cursos e a criar instituições privadas de ensino superior. Acrescentando a isso forte demanda reprimida, que conseguiu finalmente acesso ao ensino superior, resultando em uma explosão de crescimento no setor.

Com um aumento significativo da base instalada de instituições privadas e um crescimento médio de aproximadamente 14 % ao ano de 1994 a 2004, o setor passou a atrair grupos consolidadores, nacionais e internacionais. Essa solidificação modificou a situação competitiva do setor, realinhando suas características estruturais e direcionando-o para um contexto cada vez mais oligopolista e protecionista.

A partir de 2004, o cenário começa a mudar novamente. A indústria do ensino superior privado começa a ingressar em um estágio de maturidade. Começa-se a observar um período de estabilidade de demanda em função da dificuldade de novos ingressantes no formato atual, estabilizando o crescimento em níveis próximos ao crescimento do PIB. No entanto, o movimento consolidador cresce de forma cada vez mais intensa. Há quinze anos, os vinte maiores grupos de educação possuíam menos de 10 % do mercado. Hoje, os doze maiores possuem 40%. Daqui a dez anos, qual será a participação de mercado desse pequeno grupo?

Qualquer setor com um alto nível de concentração é ruim para o consumidor. Oligopólios não se caracterizam pela qualidade dos bens e serviços oferecidos, tampouco pelo preço baixo. Em relação ao setor de ensino superior, quanto mais nos aproximamos de um alto percentual de concentração, mais nos distanciamos de um modelo educacional focado em inovação e que gere crescimento sustentável para os indivíduos, empresas, entorno social e estado. Acrescentando a isso uma quantidade de vagas muito superior ao número de alunos ingressantes, chegamos a uma crise de rentabilidade sem parâmetros no setor.

Assim, as instituições de ensino buscaram alternativas para voltar a se tornar rentáveis. Com a falta de controle e avaliação por parte do poder público nos cursos de pós-graduação lato sensu, a maior parte delas enxergou na oferta desses cursos potencial para agregar receita marginal sem grandes custos associados, visto que poderiam utilizar os espaços e docentes ociosos. A falta de foco e planejamento acabou por criar uma quantidade enorme de especializações desalinhadas das demandas reais das organizações, indivíduos e sociedade.

Na tentativa de ajustar essa oferta, o Conselho Nacional de Educação constituiu uma comissão para ajustar normas e diretrizes para esse segmento. O sucesso dessa comissão depende principalmente do diálogo com todos agentes envolvidos e do entendimento das necessidades reais de formação profissional que os cursos de pós-graduação lato sensu atendem. O crescimento econômico e a contribuição social devem ser observados antes dos interesses cartoriais. Caso contrário, será um jogo de soma zero, mas que ainda pode ser evitado com a união do setor educacional, do meio empresarial e da administração pública na busca de um modelo focado em inovação, crescimento e sustentabilidade.

PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS INSTITUIÇÕES DE PÓS-GRADUAÇÃO (ABIPG)

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