Soraya Ursine/Estadão
Soraya Ursine/Estadão

Para os executivos mais bem pagos, a festa dos salários continua

Cifras exorbitantes continuam a ocorrer nos EUA, apesar dos esforços para limitar os excessos nas remunerações

David Gelles, The New York Times

19 Maio 2015 | 05h00

Compensa trabalhar para John C. Malone. O bilionário que construiu um império da comunicação e TV a cabo está com 74 anos, e não é mais diretor executivo dos negócios. Mas Malone ainda exerce influência em muitos conselhos administrativos, e os diretores executivos das empresas que ele supervisiona costumam figurar nas listas de mais bem pagos do planeta. No ano passado, a generosidade da compensação foi particularmente notável.

Tomemos como exemplo o Discovery Communications, grupo de TV a cabo por trás da Shark Week (Semana do tubarão) e programas como Cake Boss. Malone criou o Discovery a partir do seu grupo de mídia e continua a participar do conselho. O diretor executivo escolhido por ele, David M. Zaslav, recebeu uma compensação com o valor total de US$ 156 milhões no ano passado, tornando-o o mais bem pago diretor de uma empresa de capital aberto, de acordo com a classificação de 200 diretores executivos mais bem pagos da Equilar, realizada para o New York Times.

Na lista dos mais bem pagos, logo atrás de Zaslav estava Michael T. Fries, do Liberty Global, grupo internacional de serviços de cabo e comunicação sem fio no qual Malone atua como presidente. E embora Fries tenha recebido consideravelmente menos (a diferença foi de US$ 44 milhões) que Zaslav, ele ainda assim recebeu um pacote de US$ 112 milhões.


Gregory B. Maffei, um dos principais tenentes de Malone, foi pago duas vezes em 2014. Como diretor da Liberty Media, dona da equipe de beisebol Atlanta Braves e de uma grande participação no provedor de sinal de rádio SiriusXM, Maffei recebeu compensação de US$ 41,3 milhões.

Como diretor da Liberty Interactive, empresa associada que possui participação em redes de artigos para o lar, ele recebeu US$ 32,4 milhões. Malone, presidente das duas empresas, recompensou o amigo com um total de US$ 74 milhões no ano passado, colocando-o na sexta colocação da lista.

Thomas M. Rutledge, outro confidente de Malone que supervisiona a operadora regional de cabo Charter Communications, cujo conselho tem entre seus membros Malone e Maffei, recebeu um pacote de US$ 16 milhões no ano passado, um aumento de 259% em relação a 2013. Embora Malone não esteja na comissão de compensação que determina a remuneração dos executivos, Maffei está.

Reunidos, os quatro diretores executivos receberam mais de US$ 350 milhões no ano passado, ocupando três das posições mais altas do estudo realizado pela Equilar, empresa de dados relativos à compensação paga aos executivos.

"Nas empresas de John Malone, ainda se joga um esporte interno no momento de definir a remuneração dos executivos", disse Robert Jackson Jr., professor de governança corporativa da Faculdade de Direito da Universidade Columbia. "Quando pensamos em US$ 350 milhões distribuídos entre quatro homens, é difícil enxergar como isso poderia ser necessário para que esses indivíduos sejam recompensados de maneira competitiva."

As cinco empresas envolvidas tiveram bom desempenho no ano passado, embora as ações da Discovery estivessem em baixa, e Zaslav e Fries assinaram novos contratos de longo prazo, o que explica a remuneração expressiva que receberam. Malone e os quatro diretores executivos não quiseram ser entrevistados.

Os discípulos de Malone não foram os únicos a receber um pagamento tão atraente. Os líderes das empresas de tecnologia, grupos financeiros e empresas farmacêuticas lucraram bastante no ano passado, aproveitando seus lugares à mesa no interminável banquete da compensação executiva.

Nas empresas de capital aberto com valor de mercado superior a US$ 1 bilhão que tinham apresentado sua documentação até 30 de abril, o valor do pacote médio de remuneração oferecido aos 200 diretores executivos mais bem pagos foi de US$ 22,6 milhões, superando a média do ano passado (US$ 20,7 milhões). São os valores mais altos observados pela Equilar desde o início de suas atividades, em 2006.

Até se fartar. As cifras exorbitantes de hoje estão ocorrendo apesar dos contínuos esforços para limitar os excessos na remuneração de executivos.

Desde a aprovação da Lei Dodd-Frank de Reforma de Wall Street e Proteção ao Consumidor de 2010, que tornou determinadas práticas mais onerosas, as comissões encarregadas de definir a compensação abandonaram em geral vários mecanismos de pagamento controvertidos. Os empregadores não repassam mais o custo tributário dos diretores executivos que se desligam da empresa que gozam de proteções especiais. Planos suplementares de aposentadoria, que beneficiavam os executivos independentemente do desempenho da empresa, são em geral coisa do passado. Os prêmios em ações são relacionados principalmente ao desempenho, em vez de concedidos a intervalos regulares.

"Quinze anos atrás, havia programas mais ofensivos", disse Gerard Leider, da Meridian Compensation Partners. "Hoje a sensibilidade ao tema é maior do que nunca."

Esses esforços têm como base a crença segundo a qual mais transparência levaria a um aperto nos cintos muito necessário. Se as empresas fossem obrigadas a revelar o quanto seus pacotes de compensação são vantajosos, talvez se vissem obrigadas a implementar reformas.

"O aumento na pressão por mais transparência foi motivado pelo constrangimento público", disse Regina Olshan, diretora do escritório de compensações executivas Skadden, Arps, Slate, Meagher & Flom. "A ideia era que as empresas se sentissem envergonhadas e mudassem seu comportamento."

Não funcionou.

"Não me parece que esses indivíduos se sentem particularmente constrangidos", disse Regina. "Se estão ganhando bem, têm a sensação de merecerem tal quantia. E, se fazem parte do conselho, acreditam que estão oferecendo remuneração competitiva para atrair os mais talentosos." / Tradução de Augusto Calil

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