REUTERS/One Sotheby's International Realty/Handout via Reuters
REUTERS/One Sotheby's International Realty/Handout via Reuters

Para os ricos, uma casa a cada estação

Nos EUA, multimilionários mantêm propriedades em vários lugares, movimentando-se de acordo com as estações do ano e eventos VIP

Robert Frank, The New York Times

17 de março de 2016 | 07h57

Oren Alexander, corretor imobiliário dos ricos em Miami, na Flórida, já não pensa em seus clientes como compradores de uma segunda casa. Os milionários da atualidade, diz ele, normalmente andam procurando o “pacote de quatro”: uma residência em Nova York, uma casa de praia em Hamptons, uma vila de esqui em Aspen, no Colorado, e um imóvel de inverno em Miami.

“Na verdade, não estão procurando residências em tempo integral. Querem paradas em um determinado circuito”, disse Alexander, corretor da Douglas Elliman.

Os ricos sempre foram criaturas migratórias, vivendo no que F. Scott Fitzgerald descreveu como um tour “agitado”, “onde pessoas jogam polo e são ricas juntas”, mas as fortunas de hoje transformaram o tradicional grand tour em uma espécie de circuito de corrida. Eles têm propriedades em vários lugares, mas não vivem em nenhum deles, movimentando-se com o sol, as estações e um calendário cada vez mais lotado de eventos VIP.

E como os ricos possuem uma parcela maior de bens imobiliários, cidades grandes como Nova York, Los Angeles e Londres estão passando por um tipo de “resortificação”, algo conhecido em cidades de praia chiques ou resorts de esqui, pois suas populações se tornam mais sazonais.

Nômades. De acordo com o Relatório de Riqueza Knight Frank, a população de multimilionários nas grandes cidades ao redor do mundo agora muda radicalmente mês a mês. O pico da população abastada em Nova York é em junho, quando a cidade hospeda 32,5 mil pessoas com US$ 10 milhões ou mais; em fevereiro, mês de baixa, a população de milionários despenca quase dois terços, indo para 11,7 mil.

Em Miami, essa parcela incha para 5,4 mil em dezembro e cai para 1.170 em junho. Los Angeles, na Califórnia, mesmo com seu clima consistentemente ensolarado, possui uma população rica volátil, que chega a 11.170 em junho e cai para 5.630 em fevereiro, quando os milionários vão para resorts de esqui nas montanhas ou para locais tropicais.

Os centros da opulência no exterior são ainda mais sazonais. Mônaco tem 5,4 mil pessoas – ou uma em cada 16 residentes – com US$ 10 milhões ou mais em seu pico durante o mês de julho. Em fevereiro, essa população cai 73%, para 1.480. Em Dubai, a população ultrarrica cai 85% durante a baixa estação.

Andrew Amoils, da New World Wealth, empresa de pesquisa que conduziu o estudo, disse ter examinado mais de 150 mil multimilionários em todo o mundo e fez entrevistas de acompanhamento com mais de 800 para ver quando e para onde estavam viajando. (A empresa não conta os ricos que se hospedam em hotéis, portanto os picos reais provavelmente são mais elevados).

Ele diz que os fluxos e refluxos não se limitam a um ou dois meses, mas variam amplamente durante todo o ano, às vezes com diferentes grupos indo e vindo. Em Londres, por exemplo, os ricos do Oriente Médio muitas vezes chegam durante o verão, quando os milionários russos e britânicos seguem para o Mediterrâneo.

Jonathan Miller, presidente da Miller Samuel, empresa de avaliação e pesquisa de Nova York, disse que cerca de 40% dos condomínios em novas incorporações em Manhattan foram adquiridos por compradores estrangeiros em 2015. Segundo ele, muitos desses estrangeiros ricos ficam em Nova York por apenas breves períodos a cada vez, exibindo seus apartamentos mais como investimentos financeiros do que como residências.

Ao mesmo tempo, as fileiras crescentes de ricos americanos estão concentradas nas metrópoles: Nova York é agora o lar de 320 mil milionários, de acordo com Knight Frank. Há 5,6 mil pessoas na cidade com US$ 30 milhões ou mais, 32% mais que em 2005, e o número deverá crescer cerca de um terço até 2025.

Os ricos americanos, diz Miller, estão abandonando a ideia de ter uma segunda casa e tendendo mais para o modelo centro-radial, com Nova York servindo como base das migrações sazonais para Miami, Hamptons e Aspen.

Ele disse que o “circuito” começa ali no outono e, seguindo para Miami no inverno, com algumas semanas em Aspen para esquiar. Então, voltam para Nova York na primavera antes de ir para Hamptons em julho e agosto. Em Los Angeles, os ricos seguem para as montanhas – muitas vezes Aspen – para esquiar no inverno ou vão para o Havaí ou o México. A população da Flórida vai para Hamptons no verão, ou para o sul da Europa.

Os novos movimentos dos ricos globais são tão frequentes e complexos que Amoils teve de criar uma planilha grande, ao invés de um mapa, para traçar seus padrões. Ele acrescentou que as empresas que atendem aos ricos nas grandes cidades podem ter se acostumado com altos e baixos sazonais ao longo do ano. “Os altos e baixos vão se tornar mais extremos e mais frequentes. Esse grupo não fica em um lugar por muito tempo”, disse ele.

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