Para Pastore, governo adotou o 'câmbio fixo'

Ex-presidente do Banco Central afirma que o mercado financeiro está sendo tratado 'como mulher de malandro'

FERNANDA NUNES / RIO , O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2012 | 02h09

O governo está operando em sistema de câmbio fixo, apesar de não admitir, afirmou o ex-presidente do Banco Central e professor da Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getúlio Vargas Affonso Celso Pastore. "Se perguntar para o Tombini (Alexandre Tombini, presidente do Banco Central), ele vai dizer que não. Mas, de fato, está (manipulando o câmbio)", provocou Pastore, em referência à intervenção feita ontem pelo Banco Central, com um leilão da moeda americana.

"A política econômica do governo Dilma Rousseff é contaminada por um viés ideológico", disse Pastore. A crítica foi repetida por outros economistas que participaram ontem no seminário "Perspectivas para 2013", promovido pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Para Silvia Matos, pesquisadora de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da FGV, o câmbio não é a melhor variável para estimular o crescimento da indústria. A economista critica a postura do governo de exigir mudanças estruturais e de eficiência do setor produtivo, sem que reformas de infraestrutura sejam implementadas.

As críticas mais severas à política econômica de Dilma Rousseff partiram do ex-presidente do Banco Central e professor da FGV Affonso Celso Pastore. Segundo ele, "o governo trata o mercado de capitais como mulher de malandro", ao utilizar estatais como instrumento de contenção de preços, o que acaba provocando a queda das ações de empresas como Petrobrás, Eletrobrás, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.

Na opinião da economista Silvia Matos, a melhor ferramenta para garantir a retomada da produção industrial e o investimento é a redução de custos. Sem um cenário claro sobre a economia, a iniciativa privada tende a conter os investimentos, o que poderá comprometer o crescimento no próximo ano, ressaltou Silvia Matos.

"Se o governo controlar os preços demais, em algum momento o investimento não virá. Estamos descolados de outros países da América Latina, como o Chile, que, apesar da crise internacional, continua com o investimento crescente."

Cenário. A economia brasileira tende a crescer em 2013, após um ano de ritmo lento. A retomada da atividade, principalmente da indústria, depende, entretanto, da capacidade do governo de estimular o investimento, segundo os economistas que participaram do debate na FGV.

No próximo ano, o Produto Interno Bruto (PIB) deverá crescer de 3% a 3,5%, o que significará uma alta expressiva diante de um crescimento econômico de 1,3% neste ano, projeta a fundação. Mesmo as estimativas para este ano são otimistas. O crescimento de 1,3% em 2012 está atrelado a um cenário de alta de 1% no terceiro trimestre. Para o quarto trimestre, a expectativa é de desaceleração para 0,7%.

"A melhora da economia no terceiro trimestre foi em parte fruto do bom desempenho da indústria, com destaque para o setor de duráveis", afirmou a economista Silvia Matos. "Não houve difusão do crescimento entre os segmentos da indústria."

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