Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Para pensar na economia do futuro, é preciso estudar o passado

Num país infenso às lições da História, novo livro de Affonso Celso Pastore soa como indispensável e oportuna conversa de forca em casa de enforcado

Rogério Werneck*, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2021 | 04h00

Num país infenso às lições da História, sempre pronto a voltar a se fascinar com os mesmos descaminhos desastrosos de sempre, o título do novo livro de Affonso Celso Pastore – publicado pela Portfolio-Penguin, da Editora Schwarcz – soa como indispensável e oportuna conversa de forca em casa de enforcado: Erros do passado, soluções para o futuro: a herança das políticas econômicas do século XX.

Com cinco décadas de presença destacada no debate econômico brasileiro, Pastore firmou-se como uma das vozes mais respeitadas do País. O livro cobre amplo e variado leque de questões a que o autor se dedicou com mais afinco, ao longo de sua extensa vida profissional. 

Não há aqui espaço para fazer jus ao cuidado analítico revigorado com que Pastore revisita e reexplora cada um desses temas que lhe intrigaram no passado. Não posso mais do que me ater a um sobrevoo seletivo de algumas das questões tratadas, na esperança de que o leitor entreveja, com a nitidez possível, o escopo, a atualidade e a relevância do livro.

Tendo em conta a pujança e as dimensões atuais do agronegócio no Brasil, os mais jovens talvez não saibam que, há não mais que 50 anos, o debate econômico no País ainda estava dominado por grande desalento com as possibilidades de desenvolvimento do setor agropecuário. 

Arguia-se, então, que, em decorrência de uma estrutura agrária arcaica, marcada pela prevalência de técnicas atrasadas, a oferta de produtos agrícolas mostrava-se entorpecida pela insensibilidade a preços. E mesmo os que admitiam que nem tão insensível (inelástica) a preços era a oferta alegavam que a agricultura brasileira estava presa a uma armadilha fatal. Tendo em vista a extrema inelasticidade-preço e a baixa elasticidade-renda da demanda por produtos agrícolas, os ganhos esperados de uma expansão da oferta propiciada por elevação da produtividade estavam fadados a ser anulados, em boa medida, pela inexorável queda de preços que provocaria.

Salta aos olhos, hoje, como esse debate carecia de análise empírica rigorosa, que pudesse propiciar estimativas econométricas confiáveis das magnitudes das elasticidades que vinham sendo brandidas a torto e a direito. Pois foi exatamente isso que Pastore se dispôs a fazer, com pioneirismo, já em sua tese de doutorado na USP, em 1969, marco inicial de um esforço de pesquisa mais amplo que viria a desmistificar as premissas de tamanho desalento, como cuidadosamente analisado no primeiro capítulo.

Nessa mesma época, em contrapartida a seu desalento com a agricultura, o País nutria entusiasmo sem limites pelo aprofundamento a qualquer custo da industrialização. É o que Pastore discute no quarto capítulo, sobre o Segundo Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND), lançado pelo governo Geisel, em 1974, em resposta à elevação dos preços internacionais do petróleo. Tal discussão é feita no contexto de excelente análise, bem mais ampla, dos erros que redundaram na grave crise da dívida externa enfrentada pelo País no início dos anos oitenta, contra o pano de fundo do progressivo agravamento das contradições do regime monetário internacional então vigente.

Os descaminhos da indústria no Brasil voltam a ser analisados no sétimo capítulo. Após cuidadosa desconstrução dos argumentos por trás da ideia de que o crescimento de economias emergentes exigiria a manutenção de uma taxa de câmbio fortemente desvalorizada, Pastore argui que o que é preciso, hoje, é evitar subterfúgios, atacar de frente as distorções da indústria e encarar os desafios da abertura comercial.

Há ainda quatro outros capítulos em que o autor reanalisa temas que sempre lhe foram caros: o milagre brasileiro, as sementes da inflação inercial, a superinflação dos anos oitenta e o problema fiscal. 

Não se trata de livro voltado para o público em geral. Mas quem tiver alguma formação em economia não deveria deixar de tirar bom proveito da lucidez e do cuidado com que Pastore reexamina, agora, as questões que mais lhe instigaram, em sua fértil e longa trajetória profissional.

*ECONOMISTA, DOUTOR PELA UNIVERSIDADE HARVARD, É PROFESSOR TITULAR DO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DA PUC-RIO

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