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Para que duas câmeras?

As duas câmeras concedem ao celular dados para entender o ambiente a sua frente

Pedro Doria, O Estado de S.Paulo

23 Setembro 2016 | 05h00

Quando lançou o novo iPhone, no início do mês, o presidente executivo da Apple, Tim Cook, gastou alguns minutos para falar das duas câmeras que o modelo 7 Plus traz. Dá para tirar fotografias melhores, ele explicou, tirar o foco do fundo, dar zoom com mais qualidade. Tudo é verdade. Mas há outras maneiras de resolver estes problemas. O verdadeiro motivo pelo qual o celular mais caro da Apple tem duas câmeras é outro e não foi explicado. Realidade aumentada (RA).

No momento, o Vale do Silício está obcecado com três temas. Carros autônomos e as duas irmãs realidade, a virtual e a aumentada. Todas as grandes empresas locais estão depositando suas fichas em uma ou mais destas tecnologias. E se a Apple não lançasse rapidamente um celular com duas câmeras, ficaria de fora da primeira onda mais forte de RA.

Imagine um GPS vivo. O celular fica no para-brisas do carro e, ao invés de apresentar um mapa esquematizado da cidade, põe as setas de direção na imagem da rua à sua frente. Isto é realidade aumentada: preencher com informação ou objetos virtuais o ambiente em que estamos. A primeira geração, um tanto rudimentar, já está nas ruas. É o Pokémon Go. Só distração. As possibilidades são inúmeras.

Pokémon Go é rudimentar justamente porque falta a nossos celulares a segunda câmera.

Hoje, a tecnologia permite que um jogo coloque o monstrinho amarelo virtual no meio da imagem da praça. Mas é como se fosse um desenho em acetato numa janela. Não tem volume, não ocupa um lugar específico no espaço. Ninguém passa na frente dele. Acaso o objeto virtual estivesse em um ambiente tridimensional, ele ocuparia uma posição específica. Pessoas passariam pela frente e por trás. Para que a ilusão de que a coisa virtual pareça realmente estar lá, isso é fundamental.

O que as duas câmeras fazem, cada qual com uma lente distinta, é conceder ao celular dados suficientes para que compreenda o ambiente tridimensional a sua frente. O software do aparelho compara as duas imagens captadas e, por triangulação, constrói um mapa do espaço.

A corrida pela realidade aumentada está a todo galope. Ainda não dá para dizer quem apresentará o primeiro aplicativo. Talvez um guia de viagens no qual o telefone interaja com a Torre Eiffel, um videogame mais sofisticado, quem sabe um manual de instalação de qualquer aparelho.

Já existem no mercado três aparelhos Android com duas câmeras. Se a Apple não lançasse o seu este ano, os desenvolvedores não teriam como fazer a versão para iPhone.

Mas o celular é apenas o primeiro passo de uma longa história. Há alguns anos, o Google tentou adiantar-se com seus óculos. Prometia muito e entregava pouco. A Oakley vende, e caro, óculos protetores para esqui com GPS, que dão informação como velocidade e distância percorrida no cantinho do visor. Óculos capazes de preencher todo o campo de visão com os objetos produzidos digitalmente são mais complexos e, hoje, pesados. Já existem alguns para técnicos especializados no conserto de equipamentos sofisticados como as entranhas de aviões. São capacetes inteiros com visor.

Em alguns anos, porém, em menos de uma década, teremos óculos que reproduzem informação em toda área das lentes e, no entanto, indistinguíveis de óculos normais. É neste momento que a tecnologia começará a ficar pronta. E será revolucionária.

Enquanto isso, a corrida da realidade virtual é outra. Imagine um serviço como o Skype no qual você conversa com alguém no outro lado do mundo. Mas a pessoa está ali, na sua frente, um holograma perfeito, com todas as cores. Dá quase a impressão de que o toque é possível. Vai demorar menos para chegar do que o leitor imagina.

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