FÁBIO MOTTA|ESTADÃO CONTEÚDO
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Para resolver crise de Estados, governo precisa adotar remédios amargos, diz José Roberto Afonso

Segundo o especialista em contas públicas, a julgar pelo passado, no entanto, o governo deverá pedir ao Congresso nova expansão do déficit para abrigar espaço fiscal aos Estados e permitir novos empréstimos

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

14 Setembro 2016 | 17h33

BRASÍLIA - Especialista em contas públicas, o economista José Roberto Afonso, avalia que não surpreende a ameaça dos governadores do Norte e Nordeste de decretar estado de calamidade financeira, como fez o Rio de Janeiro antes da Olimpíada. 

Segundo ele, o governo federal precisa agir e escolher entre três alternativas: abrir espaço na meta de déficit vigente para oferecer novas ajudas financeiras ou novos financiamentos para os governos estaduais; se preparar para intervenção federal ou assumir liderança da Federação, traçar uma diagnóstico realista começando a combater as causas da falência das finanças dos Estados, conclamando o Congresso e Supremo Tribunal Federal (STF) a ajudar.

"Sempre disse que o quadro do Rio precedia e potencializava a crise e outros viriam no mesmo caminho", disse Afonso, que é pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). 

Segundo ele, talvez o governo opte em pedir ao Congresso uma nova expansão do déficit para abrir espaço fiscal aos Estados para permitir novos empréstimos ou concedendo auxílio financeiro emergencial como fez com Rio para Olimpíada ou com prefeituras na crise de 2009. "A julgar pelo passado, o governo vai liberar aumento de déficit pelos Estados", disse.

O economista avaliou que é necessária a adoção de remédios muito amargos e impopulares para resolver o problema. "A maioria dos Estados não pagará 13º salário deste ano, talvez nem salários. Logo, precisarão aprovar ainda este ano uma brutal elevação da alíquota da contribuição previdenciária, demitir servidores ou pactuar redução de salários e da jornada de trabalho", previu.

Para Afonso, será preciso desvincular salários dos servidores para evitar que o reajuste de um governo não contamine o outro, ou de um poder ao outro. "Tanto de ativo como os aposentados", ressaltou. Na sua avaliação, a maior resistência à medida parte justamente de juízes, deputados e promotores, fiscais, que deveriam liderar o combate desse situação. 

Pessimista, Afonso acredita que apenas cortes de cargos e fechamento de órgãos não resolvem a crise, dada a gravidade. "O calote é crescente e geral no Tesouro, nos bancos e nos servidores. Arrecadação não recuperou e ainda piorou. Serviços públicos vão sofrer cada vez mais", enfatizou. "Pior que pode ocorrer agora é repetir o passado, ou se posar de avestruz", disse o pesquisador do IBRE, ressaltando que o governo não pode esconder a cabeça na terra e dizer que esse é um problema dos governadores, ou apagar fogo com gasolina promovendo um novo ciclo de empréstimos, como querem todos governadores, para postergar a crise, como já se fez nos últimos anos.

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