Para Roubini, EUA estão sem ''bala na agulha''

Chance de nova recessão ainda é maior do que 40% e há risco de deflação, afirmou economista

Luciana Xavier, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2010 | 00h00

As perspectivas para a economia norte-americana continuam sombrias na visão do economista Nouriel Roubini. Por sombrias entenda-se taxa de desemprego elevada nos próximos anos, mercado imobiliário em recessão, consumo fraco, crescimento anêmico ou recessão.

O pior, segundo Roubini, é que a munição do governo e do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) para lutar contra outro mergulho recessivo ou desaceleração da economia está escassa.

"Temo que estejamos ficando sem balas de políticas (fiscal e monetária) na agulha para usar", afirmou Roubini na quinta-feira à noite, durante jantar para seleto grupo de economistas e investidores em Nova York.

Segundo ele, as chances de nova recessão ainda são significativas, maiores do que 40% e o risco de deflação também é uma carta sobre a mesa não só para os Estados Unidos como também para outras economias avançadas. "Mas não digo que um duplo mergulho é inevitável", disse. O risco de recessão, segundo ele, é também grande no Japão.

Roubini disse que a resposta do Fed diante dos riscos deflacionários e da fragilidade da economia deverá ser de mais afrouxamento monetário, com maior liberação de recursos.

"Tenho certeza que o Fed irá promover mais afrouxamento quantitativo (o equivalente a liberação de dinheiro na economia) no caso das perspectivas apontarem mais para piora. Mas há duvidas sobre a eficácia desse tipo de afrouxamento", afirmou. O economista citou como exemplo que hoje os bancos nos EUA "estão sentados em cima de US$ 3 trilhões em reservas e não estão emprestando esse dinheiro" por problemas de solvência no sistema financeiro e não de liquidez ou falta de demanda.

Segundo ele, o setor privado ainda está muito endividado. "Mal começamos a desalavancagem, há muito a ser feito. E nos dois últimos anos tivemos alavancagem maciça do setor público. Em algum momento o setor público terá de começar a se desalavancar, e isso vai levar a mais desaceleração da economia."

Dívida pública. Segundo Roubini, a média da dívida pública nas economias avançadas deve passar de cerca de 70% do PIB antes da crise para perto de 120% do PIB até 2015. Roubini diz que sua "melhor estimativa" para o PIB norte-americano do segundo semestre é de crescimento de 0,9%. No ano, ele fala em 2,5%. Para 2011, a estimativa de Roubini é de cerca de 1%. "Por enquanto o cenário aponta para um crescimento de 1%, que não é duplo mergulho, ainda é um número positivo, mas é fraco", disse.

De acordo com ele, os mercado se animaram nas últimas semanas com alguns indicadores. "Os mercados melhoraram porque alguns indicadores vieram melhores do que o esperado. Mas isso foi porque as expectativas eram muito baixas e ficava fácil batê-las", disse.

Ele diz que o mercado de trabalho continua extremamente fraco. "É preciso criar pelo menos 150 mil vagas pelo menos para estabilizar a taxa de desemprego e criar 450 mil vagas todo mês pelos próximos três anos para trazer a taxa de desemprego para onde estava antes da crise."

Europa. Para Roubini, a zona do euro não terá novo mergulho recessivo, simplesmente porque já está em recessão. "O PIB está contraindo na Espanha, Grécia e Irlanda, enquanto dois outros países, Portugal e Itália, mal estão conseguindo crescer. O que temos é uma continuação da primeira recessão da qual esses países não conseguiram sair."

Roubini disse que as economias globais vão crescer em diversas velocidades diferentes, com as economias avançadas mais anêmicas, abaixo do potencial, numa recuperação mais em forma de "U". "Já nos mercados emergentes será mais como retomada em forma de "V".

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