Para sair do atoleiro

Medidas tentam reanimar economia, mas crise política atua na direção contrária

Cida Damasco, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2016 | 05h00

Com a PEC do teto de gastos aprovada pelo Senado e a reforma da Previdência dando os primeiros passos, o governo tenta agora buscar um atalho que leve a economia a apressar a saída do atoleiro. A intenção é fechar o ano com um clima um pouco mais favorável, principalmente entre os empresários, que já se renderam às evidências de que 2017 será um “revival” de 2016, até mesmo nas incertezas em relação aos ocupantes do Palácio do Planalto. Não é por outro motivo que, segundo o boletim Focus do Banco Central, o mercado financeiro vem sistematicamente revisando para baixo suas projeções para o crescimento do PIB no ano que vem: a mais recente baixou mais um degrau na comparação com a da semana anterior e está em apenas 0,7%.

Embora atenda aos anseios generalizados da economia real, são muitos os entraves para que o pacote pró-crescimento funcione de uma forma apropriada para o momento. De um lado, que tenha capacidade de promover resultados a curto prazo, em vez de dar margem àquela velha ladainha de prometer o reino dos céus só depois que todos os “males” forem feitos. De outro lado, que nem de leve possa ser encarado como uma “nova” nova matriz econômica do governo Dilma. Mais: que sequer arranhe o ajuste fiscal embutido na PEC do teto de gastos públicos. Como se pode ver, tarefa nada fácil.

Tudo indica que o governo se moveu para atuar em pelo menos três grandes direções: aliviar o endividamento de famílias e empresas, flexibilizar as obrigações das empresas e estimular alguns setores com capacidade de irradiar seus efeitos pelo conjunto da economia – leia-se construção civil.

Se é indiscutível que economia e política andam juntas, um abrandamento na recessão, por mais modesto que seja, pode contagiar positivamente o clima geral do País. Pode, por exemplo, conduzir algumas famílias, com as dívidas equacionadas, a assumir novos compromissos, embora em bases mais realistas, fazendo girar a roda dos negócios, no momento claramente empacada. Pode também reanimar as atividades da construção civil, o que produz efeitos concretos numa cadeia longa da indústria e do setor de serviços e nos empregos de menor qualificação. Pode ainda dar uma folga para as empresas, seja para partir para novos desafios como simplesmente para escapar do sufoco e voltar à normalidade.

Não se deve, porém, esperar demais dessas medidas pró-crescimento. É verdade que um desafogo na economia contribui e muito para desanuviar o cenário político. Tem muita gente que diz que, se o quadro econômico fosse outro, talvez o caminho para o impeachment de Dilma tivesse sido obstruído. Mas o raciocínio contrário também é válido. A economia também depende de um desafogo na política. E isso, pelo que está se vendo, não vai ocorrer tão cedo.

Quem insistia que a delação da turma da Odebrecht continha um enorme potencial de estragos, estava coberto de razão. O vazamento da delação de apenas um dos 77 executivos da empreiteira, no último fim de semana, tirou o sono de políticos dos variados partidos aliados do governo – na oposição, como se sabe, muitos já andam como zumbis há mais tempo. Como se temia, a delação chegou ao coração do Palácio do Planalto e ontem, em meio a forte boataria, acabou derrubando um assessor direto de Temer, o advogado José Yunes.

A vitória mais apertada do governo no segundo turno da votação da PEC do teto de gastos públicos, nesta terça-feira, já emitiu um sinal de que alguns integrantes da base parlamentar podem pular fora do barco, caso a tempestade fique mais forte – dez senadores de partidos aliados faltaram à sessão e um mudou seu voto, do primeiro para o segundo turno. E certamente a vida ficará bem mais difícil para o governo na discussão da reforma da Previdência, cuja mensagem lida por boa parte da sociedade é de retirada de direitos.

Embate daqui, embate dali, o fato é que uma intranquilidade no campo político não estimula empresas a contratar mão de obra, religar equipamentos encostados e menos ainda a definir investimentos mais ambiciosos. A equipe econômica pode até estar fazendo sua parte, mas a política e os políticos certamente não estão colaborando.

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