Para S&P, Brasil segue firme rumo ao grau de investimento

O Brasil está, pela primeira na sua história, num círculo virtuoso para receber a classificação de risco de grau de investimento, de fato e por merecimento. A avaliação foi feita nesta quarta-feira, 14, pela presidente da Standard & Poor´s (S&P) no País, Regina Nunes, após participar do debate Conquista do Grau de Investimento para o Brasil: desafios e conseqüências, realizado pela Casa Brasil, na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). "Estruturalmente, o Brasil melhorou e algumas instituições estão melhores ou até iguais a países que já receberam a classificação de grau de investimento. Mais do que reformas profundas, o Brasil precisa resolver problemas de eficiência e eficácia, ajustes pontuais, para ter sua avaliação de risco melhorada", declarou a executiva.Regina não quis projetar em quanto tempo o País poderá ter a melhora de sua classificação de risco anunciada pela agência. Preferiu lembrar que a dívida em moeda estrangeira recebeu a classificação BB- em setembro de 2004 evoluindo até novembro do ano passado, quando passou a ser BB+. Segundo ela, alguns levantamentos da S&P indicam que alguns países podem chegar ao grau de investimento em um prazo de três anos, embora não exista uma regra única para obter tal classificação. "Eventos como do México e da África do Sul são poucos citados. O México levou sete anos para atingir BBB-, enquanto a África precisou de seis anos. Nossos levantamentos mostram que, ao receber classificação BB, 17,3% dos países chegam a BBB- em três anos, e 22,6%, em cinco anos", citou. "Portanto, é maior a probabilidade de diminuir a classificação do que de subir", acrescentou.Além das medidas pontuais, caso de diminuição da burocracia, de queda da quantidade de impostos menos que o volume de alíquota se mantenha, combate a informalidade e ajustes nas leis trabalhistas e de meio ambiente, ela também identificou outras condicionantes para o Brasil se tornar grau de investimento. Entre elas está o enfrentamento do País em relação a problemas econômicos financeiros e globais; a capacidade de gerar maior crescimento econômico nos próximos cinco anos; e a melhora da estrutura fiscal, ou seja, aperfeiçoamento dos gastos, sem comprometer a austeridade da política monetária. "Com um superávit primário não tão maior do que o atual, o País chegaria mais rapidamente ao grau de investimento. É importante também a estrutura forte de câmbio flutuante, exportações sólidas e de política monetária austera", listou.Mesmo a recente onda de turbulência nos mercados e que deverá, na visão da S&P, reduzir a liquidez mundial, não deverá comprometer a condução da política econômica brasileira. De acordo com Regina, o País está menos vulnerável do que no passado não apenas por contar com reservas de US$ 100 bilhões, mas porque possui hoje crescente plataforma de exportações, com diversificação de mercados. "A melhora da percepção de risco dependerá do comportamento da economia brasileira diante da turbulência do mercado. Acreditamos que este governo tem capacidade para reagir porque seu time econômico é formado por quem sabe e faz o que é o certo", opinou.JurosA presidente da S&P no Brasil disse ser equivocada a avaliação de que a queda da taxa básica de juros, a Selic (atualmente em 12,75% ao ano), é umas das condições necessárias para que o Brasil gere crescimento. "Querer que a taxa caia porque o Brasil não cresceu, e por isso é preciso reduzir a Selic, é uma brincadeira de mau gosto. Juros não caem sob decreto", afirmou.Segundo ela, o conjunto da sociedade brasileira deve considerar que a formação da taxa Selic depende da necessidade do governo para rolar a dívida pública existente; ter liquidez, caso precise promover captações; dê previsibilidade para o tamanho da máquina pública no futuro; e controle da inflação. "A dívida do Brasil e os gastos públicos não mudam nada se a Selic cair. O meu problema (para estabelecer classificação de risco) não é a Selic, mas a capacidade de operação no Brasil", acrescentou, explicando que os maiores entraves estão no tamanho da máquina pública e no tipo de gasto inadequado feito pelo governo. "O custo do Brasil para o trabalhador, de 39% de carga tributária sobre o PIB, é inaceitável, além de termos uma burocracia absurda."Ela também rejeitou a análise de que a queda da Selic promoverá desvalorização cambial e que isso resultaria em ganhos de competitividade para as exportações brasileiras. "Chegamos a ter um câmbio de R$ 4 e não exportávamos nada. A Coteminas consegue vender hoje uma camisa mais barata do que a produzida na China", avaliou ao destacar que mesmo em setores sensíveis, como os têxteis, o Brasil tem competitividade.Para ela, mais do que pensar em intervir no câmbio, o Brasil deveria abrir mais a economia às exportações. "Por quê não se discute abrir mais o mercado para as importações? Garanto que o câmbio sobe muito mais rápido se isso for feito", opinou.

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